Desenvolvimento pessoal

Relacionamentos abusivos na comunidade LGBTQIA+

O papel de nossa discussão de hoje, é refletir sobre as violências presentes nos relacionamentos LGBTQIA+, partindo da compreensão de que ações de ciúmes, cerceamento da liberdade e abusos, estão presentes em relações diversas, perpassa a questão da orientação heterossexual e está em qualquer orientação sexual ou gênero. 

Funções didáticas

Antes de aprofundarmos a discussão, trago a vocês algumas explicações didáticas que valem ser reforçadas quando se trata de modos de ser e existir diferentes. Inicialmente, o que seria sexo, identidade de gênero e orientação sexual

  1. Sexo: É o aspecto físico/biológico, está relacionado com a presença do pênis ou vagina, no nascimento a/o médica/o designa como macho ou fêmea; 
  2. Identidade de Gênero: É a experiência interna e individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal sobre o corpo;
  3. Orientação Sexual: Refere-se à capacidade de cada pessoa de sentir atração emocional, afetiva e/ou sexual por indivíduos do mesmo gênero, do gênero oposto ou de mais gêneros.

A sigla LGBTQIA+ abrange a diversidade de existências de gênero e de expressão sexual. Conhece o significado de cada letrinha? 

  1. LLésbica: Mulher que se sente atraída afetivo e/ou sexualmente por pessoas do mesmo sexo/gênero;
  2. GGay: Homem que se sente atraído afetivo e/ou sexualmente por pessoas do mesmo sexo/gênero;
  3. BBissexual: É a pessoa que se relaciona afetiva e/ou sexualmente com pessoas de ambos os sexos/gêneros; 
  4. TTransgênero: Terminologia utilizada para descrever pessoas que transitam entre os gêneros. São pessoas cuja identidade de gênero transcende as definições convencionais;
  5. TTransexual: Pessoa que possui uma identidade de gênero diferente do sexo designado no nascimento; 
  6. TTravesti: Uma construção de gênero feminino, oposta ao sexo biológico, seguido de uma construção física de caráter permanente, que se identifica na vida social, familiar, cultural e interpessoal, através da identidade;
  7. QQueer: Ajetivo utilizado por algumas pessoas, em especial mais jovens, cuja orientação sexual é fluida. De modo geral, para as pessoas que se identificam como queer, os termos lésbicas e gays, por exemplo, são percebidos como rótulos que restringem a amplitude e a vivência da sexualidade;
  8. IIntersexual: É um termo guarda-chuva que descreve pessoas que nascem com anatomia reprodutiva ou sexual e/ou um padrão de cromossomos que não podem ser classificados como tipicamente masculinos ou femininos; 
  9. AAssexual: É um indivíduo que não sente nenhuma atração sexual, seja pelo sexo/gênero oposto ou e/ou igual. 

Essas apresentações são necessários que vocês consigam identificar as diferenças e compreender a amplitude das experiências dos modos de ser e existir que o movimento LGBTQIA+ transgride.

Assim, partimos do lugar das performances de identidades de gêneros e das experimentações das orientações sexuais. As palavras “performances e experimentações”, são aqui utilizadas como produções em potência do movimento em conseguir reinventar formas de teatralizar gêneros e de construir afetos.

Relacionamentos abusivos entre LGBTQIA+

No limiar entre as diferenças, apresentamos também as construções sociais que tendenciam relações a práticas de abusos que por vezes são normalizadas, como comportamentos abusivos físicos, psicológicos e sexuais, os quais incidem na saúde mental de parceiras e parceiros, gerando quadros de ansiedade e depressão

Vivenciamos um quadro social que ações de ciúmes e cerceamento da liberdade, nas quais se definem com quem você deve andar, quais amigas/os deve ter e lugares que deve frequentar, ou ainda, quais roupas deve usar, tornam-se práticas cotidianas e comuns em relacionamentos.

Outras situações que podemos citar são as traições em relacionamentos monogâmicos; ou as exigências sexuais, como exigir que façam sexo, ou que façam determinada prática sexual. Qualquer situação que te afete psicologicamente ou fisicamente, são situações abusivas. 

Tanto na literatura científica como em ciclos sociais, as relações abusivos na comunidade LGBQIA+ ainda são pouco discutidas. Começa a criar uma visão de que essas relações só acontecem em relações heterossexuais, estando a mulher como vítima. Porém, não, nas relações homossexuais os abusos estão presentes e ainda discutimos muito pouco sobre isso. 

Quando perspectivas de ações abusivas são invisibilizadas tornam-se cada vez mais frequentes, gerando danos às pessoas envolvidas, gerenciando um ciclo de mal-estar psicossocial, que penetra subjetividades e se destrincham em baixo autoestima, angústia, ansiedade e até depressão. 

Nisso, podemos questionar “por que uma comunidade política, que fomenta discussões sobre afetos e corpos, sentidos e significados que levam em si e sobre os enfrentamentos contra práticas homofóbicas, que visam destituir seu lugar de existência, entra ou permite estar em relações abusivas?”. Talvez a resposta seja simples, porque são humanos. 

Não é porque é LGBTQIA+ que a pessoa está livre de vivenciar relações abusivas, ou inclusive, de cometer essas ações. Como brevemente pontuado, a sociedade possui em sua construção a base de relações patriarcais, sexistas e machistas, que fomentam ações. E nesse sentido, de acordo com Osório, et al (2019, p. 9): “Esta incidência pode estar, por um lado, relacionada com a desejabilidade social, o que resulta no fato de a população LGBT+ não querer passar a imagem de que os relacionamentos homossexuais também têm uma conotação violenta, e, por outro, não se podendo descurar essa realidade, pelo simples fato de os agressores terem assumido uma mudança de comportamento”.

Ao passo que as relações homoafetivas estão em um grau de paridade, não há uma hierarquização de gênero, passa a existir na verdade a hierarquização do poder, aquele ou aquela que domina na relação, ou o dito ativo/a ou passivo/a. Então, por mais que seja relação em paridade de gênero, há disparidade de poder. O abuso não tem ligação com orientação ou gênero, mas sim com a personalidade/subjetividade de cada pessoa.

Por mais que a comunidade/individuo busque não traçar essas discussões em ciclos de amigas/os ou familiares, emergir nesses afetos e expor é o primeiro passo para se destituir dessa relação. Existem diversos motivos para que evitem falar sobre relações abusivas, a vergonha é um dos maiores, de sentir-se incapaz de sair desse ciclo, de permitir que a/o outra/o te trate dessa forma, etc.

Mas vale ressaltar que nenhuma relação começa sendo abusiva, o abuso se constrói com o tempo, com o fato de não se impor limites e, às vezes, de ser permissiva/o com a/o parceira/o.

Ser permissiva/o ou não impor limites não te coloca como única/o responsável pela relação, pois relação se faz de maneira mútua, com divisões de responsabilidades e empatia. Com isso, outro passo é encarar que você não é responsável pela manutenção da relação, nem por estar passando por essas violências. Foram normas sociais, construções discursivas e produções subjetividades que te introjetaram esses modos de produzir relações. 

Devo acreditar na mudança?

Pelo fato do abuso só iniciar após um tempo, algumas parceiras e parceiros acreditam na mudança da/o companheira/o. Claro que é importante compreender que mudanças podem acontecer, mas também é importante observar até onde será o seu limite, até onde você está cuidando de si e não apenas da relação. Relevar ações nem sempre é interessante, abstrair não será a melhor saída para todo momento.

Mas, esse ciclo pode ser quebrado, tanto da saída do relacionamento, como da construção de novos modos de se relacionar com outros afetos, outros romances. A saída envolve coragem, respeito consigo mesma/o e aos seus limites e passos. Não é um processo rápido, porém pode libertá-la(o) e proporcioná-la(o) novos sentimentos e significados como você se vê. 

Em todo percurso do relacionamento é necessário que você esteja atenta/o a como seu parceiro ou parceira te vê, como lhe trata, como se dá os diálogos da relação. E manter sempre como requisito dialogar sobre o que agrada ou não a vocês, não em termos de como você quer que o outro aja, mas como você se sente em relação aos modos que ele ou ela age com você e com a relação. 

Com isso, é preciso que você identifique que não deve temer procurar ajuda psicológica, ou apoio familiar para falar sobre esses caminhos e como eles te afetam. Construir relações saudáveis é imensamente necessário para o seu crescimento pessoal e profissional, e existem espaços que não te cabem. Você é grande demais para afetos pequenos e reguladores. 

Ah! Não esquece de deixar nos comentários indicações de temas que sejam do seu interesse, quem sabe não podemos discuti-los por aqui!

 

Acesse o meu instagram @atelierdeafetos e conheça um pouco mais do meu trabalho.

 

Referências Bibliográficas:

Santos, A. M. R., Caridade, S. M. M. Violência nas Relações Íntimas entre Parceiros do Mesmo Sexo: Estudo de Prevalência. Trends in Psychology / Temas em Psicologia – Setembro 2017, Vol. 25, no 3, 1341-1356. ISSN 1413-389X. 

OSÓRIO, L.; SANI, A.; SOEIRO, C. Violência na Intimidade nos Relacionamentos Homossexuais Gays e Lésbicos. Psicologia & Sociedade, 32, e170358, 2019, p. 1-14. ISSN 1807-0310.

Liliane Silva
Etiquetas

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar