Saúde

Saúde do trabalhador: que visão te norteia?

Em tempos que exigem distanciamento social é muito oportuno aprofundarmos o olhar que temos sobre a saúde do trabalhador e refletirmos sobre  os impactos decorrentes das mudanças do mundo do trabalho em nossa sociedade.

Como você, trabalhador ou gestor, compreende a saúde? Será que nossa visão sobre saúde tem foco nas questões físicas e biológicas somente? Ou será que a enxergamos de forma integral, influenciada por diversos fatores?

Durante séculos fomos influenciados pelo modelo biomédico de saúde, onde os aspectos biológicos e físicos eram predominantemente levados em consideração nas explicações das enfermidades dos trabalhadores. A partir do século XVII um médico italiano chamado Bernardino Ramazzini inaugurou a compreensão da intrínseca relação entre o trabalho e as doenças observadas em diferentes tipos de trabalhadores, lançando uma obra mundialmente conhecida por correlacionar o ambiente em que viviam certos trabalhadores, suas posições sociais e o estado de saúde dos mesmos. 

Desde então, como aponta Silva (2015), várias áreas de estudo passaram a ocupar-se deste tema tão importante, destacando-se a Medicina do Trabalho, Assistência Social e a Psicologia Organizacional.

O conceito contemporâneo de saúde

Desde que percebemos que saúde não se refere somente ao que vemos, ou seja, ao corpo físico, uma visão mais abrangente foi sendo construída, e na defesa desta visão temos a Organização Mundial de Saúde como entidade que busca disseminar um conceito mais integral que define saúde como “um completo estado de bem-estar físico, mental e social”

Sendo assim, hoje é preciso compreendermos que a saúde de qualquer indivíduo, incluindo os trabalhadores, está para além do que vemos exteriormente, pois perpassa por seus fenômenos psicológicos e sociais, o que envolve dimensões econômicas, culturais e políticas.

Num cenário de crise pandêmica como o atual, pode até ser que fisicamente vejamos o trabalhador brasileiro saudável do ponto de vista clínico, mas será que o cenário de incerteza, instabilidade econômica e vulnerabilidade empregatícia não afetam seu bem-estar psicológico?

Infelizmente a resposta é SIM; e é por esta razão que precisamos empreender esforços individuais e coletivos para promovermos o acolhimento dos trabalhadores, amparando-os psicologicamente para que possam reunir forças para lidarem com as demais dimensões de suas vidas nesse cenário complexo.

A saúde mental e o trabalhador brasileiro

Ana Bock (2002), uma psicóloga com várias publicações científicas, aborda a saúde mental tendo em vista tanto a estrutura psíquica do indivíduo quanto sua capacidade de resposta aos fenômenos que o acompanham ao longo da vida. Isso quer dizer que cada indivíduo tem um psicoritmo próprio, que enxerga e responde às situações que o acometem de um modo singular.

Neste sentido, é possível que cada indivíduo em algum momento da vida, apresente fragilidades no tocante ao enfrentamento de situações-limites em que se encontre, o que pode, em dado momento, levar determinado sujeito ao afastamento de seu ambiente de trabalho até que recupere sua capacidade positiva de reação.

Segundo o DataPrev, mais de dois milhões de trabalhadores precisaram se afastar do trabalho no ano de 2018, e deste contingente quase cento e setenta e nove mil pessoas o fizeram devido a problemas decorrentes da saúde mental.

Dentre os problemas mais recorrentes encontram-se os episódios depressivos, transtornos ansiosos, transtorno depressivo recorrente e estresse grave. Estudos apontam que o adoecimento mental acomete mais mulheres do que homens e que estes, quando adoecem, tendem a desenvolver um quadro mais grave do que as mulheres, situação que muitas vezes os leva à aposentadoria por invalidez.

Por que esconder o sofrimento mental?

Quando pensamos nas razões de uma pessoa esconder sentimentos, dores e dificuldades, isso pode ocorrer devido a múltiplos fatores, tais como alto grau de introversão, preconceito e medo, além de padrões culturais.

Vamos falar um pouco destes fatores?

A introversão ou extroversão não são características negativas, mas tudo que é polarizado ou excessivo pode ser prejudicial à saúde. Desta forma, o sujeito introvertido que não desenvolveu a habilidade social de comunicar-se de forma assertiva, que não ampliou sua capacidade de expressar seu mundo interior para os que estão à sua volta, pode preferir sufocar seus sentimentos e pensamentos, guardando seu sofrimento psíquico para si, o que o levará, posteriormente, a uma implosão.

O preconceito é fruto de uma concepção superficial, de uma ideia pré-concebida a respeito de algo ou alguém. Podemos vivenciá-lo tanto voltando-o para nós, quanto para os outros. É o que acontece, por exemplo, com algumas pessoas que equivocadamente julgam a Psicologia e a Psiquiatria como ciências de loucos.

Esse preconceito foi construído em tempos históricos antigos, como afirma Bock (2002). O preconceito impede que pessoas em sofrimento sejam cuidadas de forma humanitária e contribui para que elas escondam suas dores e desvios daquilo que a sociedade considera desviante ou diferente.

Só a informação pode acabar com o preconceito, pois à medida que divulgamos o conhecimento, as pessoas passam a compreender que cada sujeito é diferente do outro, não existindo um padrão de certo e errado. 

O medo pode estar lado a lado com o preconceito. Muitas pessoas em sofrimento psíquico têm medo de buscar ajuda pois temem ser discriminadas, apontadas de forma pejorativa ou serem vistas como frágeis e descartáveis, o que, no mundo do trabalho, leva os trabalhadores a ocultarem seus sintomas devido ao receio de serem desligados de seus contratos.

Quando falamos de padrões culturais nos referimos a todo sistema de crenças, símbolos, tradições e produções criadas pela humanidade. Alguns padrões culturais podem inibir sujeitos em situação de sofrimento psíquico como no caso dos homens, socialmente treinados para serem fortes, corajosos, destemidos, o que pode levá-los a um comportamento de resistência em pedir ajuda, em recorrer a especialistas etc.

Outro exemplo se dá através de crenças religiosas que atribuem o mal-estar psíquico a origens exclusivamente espirituais, impedindo, assim, que o sujeito dialogue com outras áreas para enfrentamento da situação em que vive seu sofrimento psíquico.

Estratégias de enfrentamento positivo

Agora que já exploramos o trinômio físico X mental X social no que diz respeito à saúde, é importante que você, trabalhador, possa desenvolver ações que promovam seu bem-estar em todas as dimensões possíveis.

Sugerimos, nesta seção do blog, algumas possibilidades que você pode implementar em seu dia a dia:

  • Busque informações de fontes confiáveis no campo da saúde do trabalhador;
  • Compartilhe com pessoas qualificadas ou de confiança seus desafios pessoais e questões subjetivas;
  • Olhe para o todo e não somente para seu corpo ou seus sintomas;
  • Questione seus pensamentos negativos;
  • Não se isole!;
  • Construa sua rede de apoio: familiares, amigos, profissionais etc.
  • Dê espaço para o lazer entrar na sua vida!

Espero que tenha gostado da leitura! Querendo aprofundar o tema, é só me escrever!

Um grande abraço!

Liliane Moreira

CRP 52051/05

REFERÊNCIAS

  • BOCK, Ana Mercês et al. Psicologias: uma introdução ao estudo da Psicologia. 13. ed., São Paulo: Saraiva, 2002.
  • DATAPREV. Auxílios-doença acidentários e previdenciários concedidos segundo os códigos da Classificação Internacional de Doenças – CID-10. Disponível em http://www.previdencia.gov.br/dados-abertos/estatsticas/tabelas-cid-10/. Acesso em 29 de ago de 2019.
  • SILVA, Ana B. Acidentes, adoecimento e morte no trabalho como tema de estudo da História. In: OLIVEIRA, TB., org. Trabalho e trabalhadores no Nordeste: análises e perspectivas de pesquisas históricas em Alagoas, Pernambuco e Paraíba [online]. Campina Grande: EDUEPB, 2015, pp. 215-240.
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