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Saúde emocional frente ao home office

Uma visão comportamental da Depressão 

O que é psicopatologia?

Imagine que você está passeando pelo Facebook e, de repente, se depara com algum texto sobre uma psicopatologia, como por exemplo, o Transtorno de Personalidade Narcisista. Assim, com uma certa curiosidade e tédio você resolve lê-lo. No fim da sua leitura, você conclui que deve ter algum grau desse transtorno, ou que com certeza sua mãe ou seu irmão é narcisista, já que você identificou várias semelhanças entre eles e as características expostas no texto.

Esta cena descrita é muito comum e ocorre no dia a dia da maioria das pessoas, em especial dos estudantes de psicologia e medicina, já que estes lidam com esse tema praticamente o tempo todo. No entanto, é preciso ter cuidado ao sair se auto diagnosticando ou diagnosticando alguém que você conhece. É muito provável que você se identifique com tudo o que leu, porém, a linha que separa o normal do patológico é muito tênue, e geralmente refere-se a alguma dimensão comportamental, como a frequência, duração e intensidade em que determinado comportamento é emitido.

Em uma perspectiva behaviorista, entende-se que os comportamentos são frutos de uma seleção, análoga à seleção natural das espécies, na qual os comportamentos mais bem adaptados permanecem. Logo, um comportamento, por mais estranho que se apresente, tem, ou já teve, uma função na vida de um determinado sujeito. A partir dessa visão, verifica-se que os comportamentos considerados patológicos são, na verdade, comportamentos típicos da maioria das pessoas, mas que estão ocorrendo em maior ou menor frequência, intensidade ou no contexto errado do que geralmente ocorrem, compondo, dessa maneira, o quadro de algum transtorno mental.

O caso da Depressão

A maioria das pessoas já vivenciou períodos em suas vidas em que nada parece dar certo, sentiram-se tristes, sem vontade e angustiadas. Afinal, os momentos ruins fazem parte da vida e a reação que temos a eles, chamada popularmente de tristeza, é completamente normal.

Na análise do comportamento, relaciona-se o sentimento de tristeza com o término de reforçadores, isso significa que, uma fonte que antes gerava alegria e outros sentimentos bons, deixa de existir. É o caso, por exemplo, da perda de um ente querido ou o término de um relacionamento.

Nestes casos, é esperado que o sujeito fique triste por um tempo, mas depois consiga retomar sua vida normalmente, apesar da perda. No entanto, algumas pessoas possuem um histórico tão grande de situações aversivas e tão poucas possibilidades de momentos prazerosos, que uma espécie de “tristeza profunda” se instala.

Geralmente, esses são casos de depressão que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), afeta, atualmente, mais de 300 milhões de pessoas no mundo. 

Na psiquiatria, o termo “depressão” costuma referir-se a um do transtorno de humor, classificado em subgrupos, como o Transtorno Depressivo Maior, o Transtorno Depressivo Persistente (distimia), o Transtorno Misto de Ansiedade e Depressão, a Disforia pré-menstrual, entre outros.

No geral, apesar de algumas particularidades, todos esses transtornos se caracterizam por:

  • Humor negativo ou rebaixado,
  • Redução da energia, disposição e atividade,
  • Fadiga intensa,
  • Redução da capacidade de concentração,
  • Falta de motivação e vontade,
  • Perda de interesse em atividades que costumavam ser prazerosas,
  • Alterações do padrão de sono e/ou alimentar,
  • Diminuição da autoestima e/ou autoconfiança, lentidão psicomotora, perda da libido, perda de memória,  isolamento, sentimentos de culpa e inutilidade, ideações suicidas, etc.

Além disso, para o diagnóstico, outros aspectos devem ser levados em consideração, como a quantidade e duração dos sintomas e a presença de pensamentos auto depreciativos. 

A visão comportamental 

Na ótica behaviorista, o comportamento é determinado por múltiplos fatores, sejam eles biológicos ou culturais. Como visto, a Depressão não é um comportamento, mas um conjunto de comportamentos bastante complexos, e, portanto, a explicação desse fenômeno é também complexa. Dentro deste contexto, muitos modelos experimentais têm sido formulados para explicar o possível desenvolvimento de alguns sintomas depressivos.

No entanto, apesar dos modelos serem muito úteis, é preciso analisar cada caso de maneira singular. Alguns aspectos da Depressão reproduzidos em modelos experimentais são a passividade e falta de iniciativa (abulia), a irritabilidade, o negativismo, paralisia e a anedonia (perda de capacidade de sentir prazer).

Desamparo aprendido: processo que demonstra que, quando uma pessoa é exposta a uma história de eventos aversivos (mortes, abuso, doenças, perdas no geral) incontroláveis, ou seja, a pessoa não consegue fazer nada que a tire da situação aversiva, ela pode desenvolver um comportamento passivo diante de adversidades, mesmo em situações na qual ela possui algum controle.

Em outra palavras, o indivíduo aprende que nada que ele faça pode tirá-lo de uma situação aversiva, e assim, ele para de responder ao ambiente, desenvolvendo a falta de iniciativa, a desesperança  e o sentimento de incapacidade/inutilidade observados em muitos quadros depressivos. 

Estresse crônico moderado:

Esse modelo experimental demonstra que um indivíduo, quando exposto a uma série de eventos aversivos moderados e também incontroláveis, perde o interesse em atividades e coisas que costumavam ser prazerosa, ilustrando o fenômeno da anedonia da Depressão.

Extinção:

Em síntese, a extinção é um processo comportamental em que um comportamento que anteriormente implicava resultados positivos para um indivíduo, de repente para de produzir esses resultados. Um exemplo simples é um aluno que, durante o ensino médio, tinha o costume de estudar na véspera da prova e sempre tirar boas notas. Como isso funcionava, ele não se dava ao trabalho de estudar com mais antecedência. Ao entrar na faculdade, ele continuou a fazer a mesma coisa, entretanto, não funcionava mais tão bem e ele passou a ver suas notas despencarem.

É esperado que, depois de tirar várias notas ruins, ele tente mudar sua estratégia de estudo e pare de estudar só na véspera. Dizemos que o seu comportamento de estudar para prova na véspera foi extinto, isso é, parou de ocorrer. 

O problema é que, muitas vezes, o comportamento colocado em extinção é justamente aquele que proporciona mais prazer para determinado sujeito, e, a perda dessa fonte reforçadora pode causar vários efeitos colaterais, como irritabilidade, mau humor e também passividade.

Tratamento da Depressão

O tratamento da Depressão é bastante variado. O mais conhecido é o farmacológico, indicado geralmente em casos de depressão moderada a grave. No entanto, em conjunto com o tratamento psiquiátrico, é essencial o acompanhamento psicoterápico.

Há ainda tratamentos alternativos complementares ao convencional, como a prática de exercícios físicos, mudança na alimentação, yoga, meditação, reiki, florais, homeopatia, etc.

No campo da psicoterapia, a denominada ativação comportamental (BA, do inglês behavioral activation) é um dos tratamentos empiricamente validados para o tratamento da depressão. A  proposta da BA é localizar os fatores que contribuíram para o desenvolvimento do quadro depressivo no contexto de vida do indivíduo. A terapia, portanto, terá como objetivo intervir em comportamentos que favorecem a manutenção e agravamento da depressão. 

Ainda, é importante destacar a necessidade de procurar profissionais capacitados para lidar com um quadro depressivo. Fuja de “propostas terapêuticas” que afirmam e/ou reforçam crenças errôneas sobre essa psicopatologia como: “depressão é sinal de fraqueza”, “só depende de você”, “isso é falta de força de vontade!”, etc.

 

Psicóloga Ana Paula Villares CRP 06/157086

 

Referências Bibliográficas:

Abreu, P. R., & Abreu, J. H. S. S. (2020). Ativação comportamental na depressão. Editora Manole Ltda.

American Psychiatric Association. (2015). Neurodevelopmental Disorders: DSM-5® Selections. American Psychiatric Pub.

Araripe, N. B., Bittencourt, A. C. C. P., Neto, E. C. A.,& Rodrigues, M. E. (2015) Depressão: psicopatologia e terapia analitico comportamental. Juruá Editora.

Hübner, M. M. C., & Moreira, M. B. (2000). Temas clássicos da psicologia sob a ótica da análise do comportamento. Grupo Gen-Guanabara Koogan.

Ana Paula Villares Mendes
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