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Saúde mental dentro das organizações 

O trabalho sempre acompanhou a vida do homem, podemos falar dele desde os primórdios da humanidade. Ao longo dos anos, grandes mudanças ocorreram no mundo do trabalho, podendo, muitas dessas mudanças serem atribuídas ao progresso da informatização e o desenvolvimento da tecnologia.

A introdução maciça da tecnologia no trabalho, que intensificou o ritmo de trabalho, o aumento do setor terciário, elevando a exigência emocional do trabalhador e a diversificação da força de trabalho, contribuindo para uma difícil conciliação entre a vida privada e o trabalho, provocaram grandes impactos sociais e individuais. 

Um breve histórico sobre o mundo do trabalho

Fazendo um breve histórico sobre o mundo do trabalho, podemos ver que as ideias mais difundidas sobre o trabalho na antiguidade são aquelas associadas ao pensamento grego ateniense, enquanto, para Platão, o cidadão deveria ser poupado do trabalho, Aristóteles valorizava a atividade política e acreditava que o trabalho braçal era uma atividade inferior que impedia as pessoas de possuírem virtudes, por isso, este trabalho competia apenas aos escravos.

No império romano, o trabalho cabia aos escravos dominados por guerras e conquistas, devido ao antagonismo de classes e pelas crises econômicas que empobreciam ainda mais as camadas populares (Borges & Yamamoto, 2004).

Já o cristianismo trouxe a noção de vocação, divisão do trabalho e a distinção entre os homens, pois com isso o trabalho passou a ser visto como cumprimento do dever para com Deus, e este era o caminho para o céu, já que isso agradava o querer divino. O trabalho que a pessoa realizava era visto como uma bênção de Deus (Albornoz, 1986). 

Com o surgimento do capitalismo houve mudanças significativas em relação ao trabalho, pois o indivíduo se vê sem alternativa a não ser vender sua força de trabalho em troca de dinheiro, com isso nasce a noção de contrato de trabalho, o que resulta no trabalho tal como é hoje (Borges & Yamamoto, 2004).

Devido ao progresso da informatização e do desenvolvimento da tecnologia, o ritmo de trabalho foi intensificado, houve um aumento do setor terciário, elevando a exigência emocional do trabalhador e a diversificação da força de trabalho. 

A importância do trabalho na saúde mental  

As atividades ocupacionais são fundamentais para a construção da identidade social das pessoas e contribuem para uma maior interação social. Parte da identidade do indivíduo deriva do trabalho que ele desenvolve. Além disso, a vida profissional de um sujeito afeta, positiva ou negativamente, os outros âmbitos da própria vida e das pessoas próximas, como amigos. Do mesmo modo que problemas no âmbito pessoal pode afetar o trabalho. 

Por ocupar uma parte importante na vida das pessoas, interfere diretamente na Saúde Mental, entendendo que saúde mental dentro da organização está diretamente ligada à qualidade de vida no trabalho. A qualidade de vida no trabalho pode ser definida como “a capacidade de administrar o conjunto das ações, incluindo diagnóstico, implantação de melhorias e inovações gerências, tecnológicas e estruturais no ambiente de trabalho alinhada e construída na cultura organizacional, com prioridade absoluta para o bem-estar das pessoas da organização” (Limongi-França, 2009, p. 260). 

Essa prescrição para a uma nova forma de gestão organizacional remete àquilo que a Organização Mundial de Saúde definiu, em 1986, como conceito de saúde: a conservação da plenitude física, mental e social dos indivíduos, ou seja, um pleno bem-estar do indivíduo e não só a inexistência de doenças (como citado em Limongi-França, 2009). 

Saúde mental no trabalho 

Portanto, para promover um ambiente de trabalho saudável, as organizações devem se preocupar com as esferas psicológicas e sociais, além das esferas físicas e biológicas. O domínio biológico diz respeito às particularidades físicas transmitidas ou adquiridas pelo indivíduo ao nascer e ao longo da vida.

O domínio psicológico refere-se aos processos emocionais e cognitivos, tanto aos conscientes quanto aos inconscientes, que constituem, por exemplo, a personalidade, já o domínio social inclui os valores, as crenças da sociedade a qual o sujeito está inserido. 

A percepção de um agradável clima organizacional por parte dos trabalhadores, a promoção de uma cultura organizacional que favoreça o bem-estar e a felicidade dos indivíduos, o bom convívio entre as pessoas e os grupos no ambiente de trabalho, entre outros comportamentos positivos, são características que as empresas deveriam seguir.

Algumas medidas organizacionais também podem ajudar a influenciar o modo como a pessoa perceberá o ambiente em que trabalha e como reagirá diante de eventos, mas a vida pessoal do emprego também influenciará.

Exemplo de intervenção 

Agora vamos expor um exemplo de intervenção usando o estresse, mas antes se faz necessário a definição de estresse. Vieira (2001) define estresse como um estado no qual ocorre um desgaste emocional do ser humano e/ou comprometimento das próprias habilidades, principalmente decorrente de uma insuficiência crônica do organismo de tolerar, superar ou de se adaptar às exigências do seu ambiente.

De maneira geral, o estresse é um conjunto de reações da mente e do corpo, e resposta a diversos estímulos de ordem emocional e física. Já estresse no trabalho é derivado do contexto e do conteúdo do trabalho em interação com as características individuais. 

As intervenções podem ser realizadas por psicólogos organizacionais no contexto do trabalho e devem ser dirigidas para a situação do trabalho, e para a capacidade de enfrentamento do trabalhador, a psicoterapia individual.

As intervenções podem ser primárias e teriam como objetivo eliminar, reduzir ou alterar estressores no contexto do trabalho. A prevenção secundária tenta evitar que os trabalhadores que já apresentam sinais de estresse fiquem doentes.

O objetivo dessa intervenção é aumentar a capacidade de coping do trabalhador, ou seja, aumentar a capacidade de enfrentamento do indivíduo frente a situações estressantes. No caso da prevenção terciária, o objetivo é tratar aqueles trabalhadores que apresentam consequências sérias de estresse e reabilitá-los.

Em todas essas etapas a psicoterapia pode ajudar o trabalhador.  

Referências 

  1. Albornoz, S. (1986).  O que é trabalho. Para onde vai o mundo do trabalho. São Paulo: Brasiliense, (Primeiros Passos; 171). 
  2. Borges, L.  O., & Yamamoto, O.  H.  O.  (2004).  Mundo do trabalho. In J. C. Zanelli, J. C.Borges Andrade & A.  V.  B Bastos (Eds), Psicologia, organizações  e  trabalho  no Brasil. 2ª Ed. Porto Alegre: Artmed, p. 24-62. 
  3. Corrêa, S. A., & Menezes, J. R. D. M. (2002). Estresse e trabalho. Campo Grande: Monografia de PósGraduação Lato Sensu. Sociedade Universitária Estácio de Sá. 
  4. Katz, D., Khan, R. L. Psicologia social das organizações. 2.ed. São Paulo: Atlas, 1976. 
  5. LimongiFrança, A.C. (2009). Promoção de saúde e qualidade de vida no Trabalho: o desafio da gestão. In A. M. Rossi, J. C. Quick, & P. L. Perrewé (Org.). Stress e qualidade de vida no trabalho: o positivo e o negativo. São Paulo: Atlas, p. 256-277 
  6. Robbins, S.P., Judge, A.T., & Sobral, F.  (2011). Comportamento organizacional: teoria e prática no contexto brasileiro. 14º Ed. São Paulo: Pearson Premtice Hall. 
  7. VASCONCELOS, Amanda de; FARIA, José Henrique de. Saúde mental no trabalho: contradições e limites. Psicologia & Sociedade, v. 20, n. 3, p. 453-464, 2008.  
  8. Vieira, S.  I.  (2001).  Reforço do suporte psíquico.  Conteúdo ministrado no 1º Curso de Especialização de Medicina do Trabalho, em Campo Grande, MS.
Bruna Jéssica Silva
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