Psicologia geral

Preservação da saúde x preservação da fonte de renda

Este texto é continuação do artigo “Psicologia, fake news e preconceito em tempos de pandemia”, publicado em 25 de março de 2021 neste Blog. Clique aqui para acessar o artigo.

O conflito que divide uma nação

O Brasil, assolado pela pandemia do Corona vírus, observou sua população se dividir quanto à maneira de fazer frente a essa situação inusitada: Uma liderança política central (federal) e seus apoiadores apelando à população para que continuem a trabalhar, a serem produtivos, a fim de evitar o colapso econômico, o desemprego, o incremento da pobreza e da fome.

Por outro lado, outras lideranças políticas (grande parte de governadores e prefeitos) e seus seguidores apelando para que a população evite contato físico, fique em casa na medida do possível, faça uso de medidas de prevenção e higienização como lavar frequentemente as mãos, usar álcool gel, usar mascaras a fim de evitar a transmissão e contágio do vírus. 

O Governo Federal, sendo liderado pelo presidente, divulgando o discurso de que o país não pode parar, e a economia, se gravemente afetada, trará mais males que a disseminação do Corona vírus na população.   

Governadores em sua maioria, além de parte significativa dos prefeitos agindo e defendendo a necessidade de interromper a parte do funcionamento da economia que se desenvolve através de concentração de pessoas e contatos pessoais, uma vez que facilitaria a disseminação do vírus e causaria tantas mortes, que não compensaria a manutenção da atividade econômica plena.

Nas redes sociais virtuais, o conflito das duas visões se manifesta, elevando a temperatura das discussões.

Reflexos na saúde mental

As pessoas mais sensíveis e/ou que foram mais impactadas pela doença causada pelo Corona vírus, seja por terem contraído a enfermidade, seja por terem pessoas próximas que contraíram, seja por terem sentido em sua rotina diária os reflexos da presença da pandemia alterando suas vidas, começam a ter sua saúde psíquica afetada.

De acordo com o levantamento do Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Psiquiatria de São Paulo (BERGAMO, 2021), no período de junho de 2020 a fevereiro de 2021 (durante a pandemia do Corona vírus) comparado com o período de janeiro de 2019 a maio de 2020 (período anterior e no início da pandemia) houve um aumento de 10% de casos de ansiedade atendidos por mês.  

Tendo ainda que considerar que durante a pandemia um número razoável de pessoas não procurou ajuda médica-psiquiátrica por evitar ter contato com outros, com receio da contaminação pelo vírus.

O valor da fonte de renda (trabalho ou dinheiro) na pandemia

Pesquisa do Instituto Datafolha publicada no jornal Folha de São Paulo de 21/05/2021 (AMÂNCIO, 2021) mostra que 25% da população brasileira teve falta de comida nos últimos meses, segundo a notícia “um em cada quatro brasileiros afirma que a quantidade de comida na mesa para alimentar a família foi menor do que o suficiente nos últimos meses, durante a pandemia da COVID-19. O levantamento aponta também que 88% dos entrevistados disseram perceber que a fome no país tem aumentado”.

Como as necessidades de subsistência, necessidades fisiológicas são a base para a existência de uma pessoa, não satisfeitas, as demais tornam-se secundárias? A proteção contra o contágio do Corona vírus tornar-se-ia secundária se a fome, a necessidade de abrigo, de vestuário, de água encanada, de energia elétrica e demais necessidades básicas não estivessem supridas? 

Maslow (1970), em sua teoria da hierarquia das necessidades (Pirâmide de Maslow), indica que sim, que o ser humano primeiro dedicaria sua atenção em suprir suas necessidades fisiológicas, antes de se dedicar a um segundo nível de necessidades, no caso de necessidades de segurança, onde estaria a proteção contra doenças que ameaçassem sua saúde e sua vida.

Neste sentido, grande parte dos governos do mundo tem fornecido desde o início da pandemia auxílio financeiro, como transferência direta de renda e medidas de outras naturezas de ajuda às suas populações (TOMAZELLI; FERNANDES, 2020), para que possam ter supridas suas necessidades básicas e se dediquem a dar atenção às necessidades de segurança, onde estariam contidas as medidas de prevenção e combate ao Corona vírus, como distanciamento de contatos sociais, uso de máscaras, higienização de superfícies que podem transmitir o vírus, etc.

Ou seja, se a população que tem fonte de renda suprimida, diminuída ou impedida de gerar receita de subsistência não tiver apoio do governo ou sociedade para satisfazer suas necessidades básicas, pode tender a não aderir às medidas de prevenção e combate ao vírus, que a impeçam de gerar renda de subsistência.  

O valor da saúde na pandemia

A pergunta “a priori” seria sem sentido – qual o valor da saúde, da vida? Pois é nosso bem mais precioso.    Porém, aqui nos referimos ao risco de contrair o vírus que mata de 2 a 3% em média daqueles que são infectados por ele, segundo as estatísticas no mundo em final de maio de 2021 (CHANNELNEWSASIA, 2021), ou seja, em média 97 a 98% dos infectados pelo Corona vírus não perderão suas vidas em decorrência da doença.

Mas estes 2 ou 3% poderão se elevar se não houver leitos de hospitais para atender os infectados em estado mais grave, pela alta transmissibilidade da doença, observando-se que os infectados não podem ser em número que supere a capacidade de atendimento dos estabelecimentos de saúde (hospitais, prontos socorros, etc.), pois caso contrário o número de mortes se elevará sem controle, visto que o paciente grave da doença não consegue respirar sem a ajuda de um equipamento respirador e suporte médico de Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Também não há estudos conclusivos de quais pessoas são mais suscetíveis aos casos graves da doença, pelo que em parte há incerteza quanto a quem será e quem não será um paciente grave em caso de infecção. 

Assim, valeria a pena colocar a vida em risco, sem saber se o dado do destino irá te escolher ou não para ser um paciente grave da doença?

Homem teórico (médicos, cientistas) x homem econômico (comerciantes, trabalhadores) x homem político (governantes, apoiadores)

Segundo Eduard Spranger (1976), em seu livro As Formas da Vida, os seres humanos tendem a dar mais atenção, a ter um foco maior de sua existência em determinados aspectos da vida, ou seja, no conhecimento (homem teórico), ou no aspecto financeiro/econômico da vida (homem econômico), ou no campo das artes (homem estético), ou no âmbito da convivência social (homem social), ou no poder (homem do poder ou homem político) ou por fim nas explicações e crenças na existência divina (homem religioso).

No caso da pandemia do Corona vírus no Brasil, aparentemente três tipos de individualidade descritos por Spranger tem um protagonismo maior, que são os seres humanos do tipo teórico, os do tipo econômico e por fim os do tipo político (ou do poder).

Os do tipo teórico, como nos relata Spranger (1976), seriam aqueles que estão sempre ligados ao princípio da razão, havendo neles um sentido para a pureza do processo de conhecimento, uma veracidade que não atenta para nenhuma outra coisa.  

Sua meta é a verdade e o caminho até ela é a purificação crítica do conhecimento de todas as impurezas subjetivas. São representados em sua forma pura pelos cientistas, profissionais de saúde pesquisadores e outros produtores de conhecimento técnico-científico, que não aceitam opiniões e orientações para combater a pandemia fora do escrutínio dos métodos científicos.

Outro tipo de indivíduo relatado pelo autor que tem protagonismo nesta pandemia é o homem econômico, que é aquele que põe em primeiro lugar, em todas as situações da vida, o valor da utilidade. Tudo se converte para ele num meio de conservação da vida, de luta material pela existência e para tornar a vida agradável. Segundo Spranger (1976), o homem meramente econômico é egoísta: conservar a sua vida é para ele a ocupação primordial; consequentemente, todos os outros se encontram naturalmente mais longe dele do que seu próprio ego.  

A renúncia voluntária à posse, por amor a outrem, é sempre antieconômico; o interesse que o homem econômico tem pelo próximo é um interesse puramente utilitário. Seria assim, em sua forma pura o tipo que põe em primeiro plano a conservação material da vida, tais como o comerciante, o homem das finanças, um trabalhador e todos aqueles para quem o primordial é a existência física, material, utilitária. 

O terceiro tipo de maior protagonismo na pandemia do Corona vírus no Brasil seria o homem do poder (homem político). Segundo Spranger (1976), o poder seria a capacidade e a vontade de colocar nos outros, como motivo duradouro ou passageiro, a orientação de seus valores próprios. A vida humana inteira está perpassada pelas relações de poder e de rivalidade; até mesmo nos mais modestos e estreitos círculos, elas desempenham um papel.

Cada qual é, de um modo, um centro de poder e também, por sua vez, um objeto de poder. Esse aspecto da vida torna-se o mais evidente possível no poder coletivo organizado do Estado. O homem do poder fixa de antemão seu olhar nos pontos onde pode se apoiar para colocar em movimento o homem tal como é: procura os pontos favoráveis de motivação no ser humano.

Ele se inclina, inicialmente, a presumir formas cotidianas e inferiores da motivação, porque a maioria dos homens pode, de fato, ser movidos a partir desse lado; cada um tem o seu preço, cumpre apenas pagá-lo. Na política, o conhecimento dos homens equipara-se ao conhecimento da “serventia” do indivíduo. Quem considera a verdade como a lei mais alta, não pode considerar o poder como o valor supremo. Mas, para quem vive para esse objetivo unilateral de vida (poder), o verdadeiro e o falso se equivalem, desde que sirvam ao sistema de poder.

Para quem está sempre nessa luta (homem do poder), aquilo que ele quer e em que acredita converte-se numa “verdade” tão óbvia que perde absolutamente todo sentido para uma atitude objetiva e capaz de uma ponderação justa.

Conclui o autor que, no final das contas, para o homem político o que importa é apenas a persuasão, não mais a convicção; por conseguinte, não é a ciência, mas sim a retórica que pertence ao estilo do homem do poder. A questão pela forma de motivação do tipo político leva-nos a contextos espirituais muito importantes: compreende-se sem mais que a vontade de ser superior ao outro constitui o motivo permanente do homem do poder.

A falta de princípios é tão somente o resultado de sua específica vontade de vida, da vontade de ficar em todas as circunstâncias “por cima” e de conservar sua preponderância. Em face disso, até mesmo as exigências da realidade passam para o segundo plano. Neste momento de pandemia, os políticos, como o presidente, governadores, prefeitos, senadores, deputados, vereadores, seus auxiliares e todos que detém o poder sobre a vida dos cidadãos são a representação do homem do poder (ou homem político).

Conclusão

Como o homem teórico na pandemia não consegue obter suas certezas pelo método científico, não consegue alcançar suas verdades universais, pois a doença provocada pelo Corona vírus é nova e não se conhece o suficiente sobre ela para se acabar com dúvidas que se apresentam; o homem teórico representado pelos cientistas, pesquisadores, médicos e de outras carreiras da área da saúde abre espaços para o homem econômico e para o homem político contestar suas orientações.

O homem econômico, representado pelos homens de negócios, comerciantes, industriais, trabalhadores empregados, autônomos, trabalhadores informais, homens de finanças e de outros setores, por sua vez, vendo sua existência material ameaçada de diminuição ou perda de fonte de renda, reage contra a parada da economia orientada pelo homem teórico, insurgindo contra o prejuízo ou até a ameaça de supressão da fonte de renda.

Por fim, o mediador do conflito “preservação da saúde x preservação da fonte de renda”, o homem do poder, representado pelos governantes do poder executivo, os integrantes do poder judiciário e do ministério público e os integrantes do poder legislativo, se perdem em como manter seu “status quo” de detentores do poder estatal ou governamental, ao não conseguir detectar com precisão de que lado poderão atender melhor os anseios daqueles que lhes manterão em suas posições.

Lauro Kuester Marin – Psicólogo

Referências:

  1. AMÂNCIO, T. Faltou comida para 25% dos brasileiros nos últimos meses. Folha de São Paulo, São Paulo, p. B4, 21 mai. 2021.
  2. BERGAMO, M. Salto Folha de São Paulo, São Paulo, p. C2, 01 mai. 2021.
  3. CHANNELNEWSASIA.  Covid-19/map.  Disponível em:  < https://infographics.channelnewsasia.com/covid-19/map.html>.  Acesso em:  28 mai. 2021.
  4. MASLOW. A.  Motivation and Personality.  Ed. Ver. New York: Harper and Row. 1970.
  5. TOMAZELLI, I; FERNANDES, A.  Ao menos 45 países já adotaram medidas para conter impactos da covid-19 em emprego e renda.  O Estado de São Paulo, São Paulo, Economia & Negócios, 23 mar. 2020.  Disponível em:  https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,ao-menos-45-paises-ja-adotaram-medidas-para-conter-impactos-da-covid-19-em-emprego-e-renda,70003244688.  Acesso em:  28 mai. 2021.
  6. SCHERMANN, D.  Pirâmide de Maslow:  o que é e por que você precisa conhecê-la. 2018.  Disponível em < https://blog.opinionbox.com/piramide-de-maslow/>.  Acesso em 23 fev. 2021.
  7. SPRANGER, E.  Formas de Vida.  Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1976.
LAURO KUESTER MARIN
Últimos posts por LAURO KUESTER MARIN (exibir todos)
Etiquetas

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar