Desenvolvimento pessoal

O sentimento inconsciente de culpa

A culpa sentida conscientemente é quando a pessoa comete um ato inapropriado ou socialmente não aceito. Porém, muitas pessoas têm sua vida prejudicada por sentirem culpa em excesso, mesmo sem terem cometido algum delito ou fato grave a outrem, e não identificam de onde surgiu esse sentimento.

Socialmente falando, aprende-se desde a infância a sentir culpa e vergonha por cometer um erro, e esse sentimento se repete no decorrer da vida. Porém, quando sentido sem motivo consciente, pode se tornar uma fonte de angústia para a pessoa, dificultando o curso natural da vida. 

Sobre essa temática, Freud expõe que o sentimento de culpa é o resultado de uma tensão entre o ego (Eu) e o superego (uma parte do Eu que condena devido a um conjunto de normas introjetadas no sujeito), e que se manifesta com uma necessidade de punição.

Autocensura e remorso

Pensando no sentimento de culpa como o Eu que percebe as críticas do superego, por estar agindo “fora das suas normas rígidas”, é o que pode resultar num conflito interno, porque há um ideal do Eu que o critica severamente.

Esse sentimento pode afetar em demasia o ser humano, algumas pessoas sentem-se culpadas por ações inofensivas como, por exemplo, comprar, comer, possuir bens, viajar, falar algo para alguém e até por pensamentos que julga serem impróprios, entre outras situações. Consequentemente, resultando em uma autopunição, para que possa sentir alívio da tensão interna sentida.

Nesse sentido, algumas pessoas se censuram, se questionam sobre serem merecedoras ou não de usufruir das suas conquistas, questionando-se sobre serem pessoas dignas ou indignas, relacionando esse juízo de valor sobre si mesmo com severidade, mesmo sem o sujeito compreender o real motivo de sentir-se constantemente incapaz de sentir-se realizado.

Os pensamentos hostis que eventualmente aparecem no universo mental relacionado a outras pessoas podem ser prejudiciais ao extremo quando existe uma autocensura extremamente rígida. Freud indaga sobre por que a intenção é considerada a um ato equivalente? Pois só de pensar em algo hostil, a pessoa se culpa, e se autoflagela, mesmo sem ter feito alguma ação.

As consequências disso é que a culpa é uma emoção corrosiva que vai entristecendo, irritando, desmotivando, gerando pensamentos pessimistas e até mesmo adoecendo psiquicamente a pessoa, impedindo seu crescimento pessoal e profissional, atrapalhando também nas suas relações interpessoais.

Afinal, de onde vem essa culpa?

Alguns fatores que podem estar relacionados à origem desse sentimento é o fato de algumas pessoas terem sido extremamente censuradas na infância e/ou adolescência e, por consequência, podem ter desenvolvido um superego severo, tornando-se intolerantes com seus próprios pensamentos e sentimentos, levando-as inconscientemente a um processo de autopunição.

A vivência de um trauma na infância também pode ser fator desencadeante dos sentimentos culposos, muitas crianças fantasiam o que lhes aconteceu como sendo sua culpa devido a uma possível “desobediência” aos pais ou cuidadores, ou fatos semelhantes. Dessa forma, a criança pode atribuir a si mesma uma imensa culpa, ou ainda a culpa derivada do medo de perder o amor dos pais ou do temor da punição, o que pode gerar inúmeros desdobramentos futuros.

Por não compreenderem o que lhes aconteceu, e ao sentirem-se culpadas constantemente, muitas pessoas se esquivam de realizar coisas que apreciam ou que lhes gera sensações de prazer e bem-estar. Quanto a isso, Freud em sua teoria destacou que as pessoas podem adoecer devido a frustração ou a privação na satisfação dos desejos.

Sofrimento psíquico

A pessoa, na tentativa de aliviar esse sofrimento, responsabiliza-se por coisas que não são da sua responsabilidade e passam a vida inteira punindo a si mesma ou agindo de forma a reparar compulsivamente algo que nem precisava ser reparado.

A retroalimentação da culpa pode causar sofrimento e prejuízos significativos ao sujeito, e quando o motivo originário da culpa é a nível inconsciente, pode ser acessado pelo processo psicoterapêutico, e ao trazer essa memória à luz da consciência é possível entender como esse sentimento foi construído e como ele opera na vida da pessoa.

Posto isto, é importante compreender a origem desse sintoma, para que a pessoa possa romper a retroalimentação desse sentimento e iniciar seu processo de cura.

A psicoterapia de orientação psicanalítica

O processo psicoterapêutico pode auxiliar muito além da identificação das memórias traumáticas, concomitantemente favorecer com o autoconhecimento, aceitação de si, reconhecimento de suas qualidades, sem exageros e enxergar seus pontos menos apreciativos, sem autoflagelação.

A partir desse olhar autêntico sobre si, é possível aprender formas de desenvolver um diálogo interno mais saudável e assertivo, tornando-se possível aumentar a qualidade de vida, tornando-a mais leve e fluída. 

Deste modo, a psicoterapia com base na orientação psicanalítica possui como foco principal favorecer um novo olhar do paciente sobre si próprio e o mundo ao seu entorno e conhecer os motivos que o levaram ao sofrimento psíquico, permitindo que ressignifique esses acontecimentos traumáticos e se torne conhecedor do seu funcionamento no mundo.

Psicóloga Cristiane Aparecida Ceconello Machado

CRP–08/32672

Referências:

  1. LIMA, D. M. O. Sobre o sentimento de culpa. Que culpa é essa? 2012. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372012000200006. Acesso em: Março 2021.
  2. GELLIS, A. HAMUD, M. I. L. Sentimento de culpa na obra freudiana: universal e inconsciente. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010365642011000300011&script=sci_abstract&tlng=pt#:~:text=Sentimento%20de%20culpa%20na%20obra%20freudiana%3A%20universal%20e%20inconsciente.,USP%20%5Bonline%5D.&text=Na%20constata%C3%A7%C3%A3o%20da%20d%C3%ADade%20da,o%20Supereu%20faz%20ao%20Eu. Acesso em: Março 2021.
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