Ansiedade

É Síndrome de Burnout, positividade tóxica ou excesso de trabalho?

A Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional é um distúrbio psíquico descrito em 1974 por Freudenberger, um médico americano. O transtorno está registrado no grupo 24 do CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde) como um dos fatores que influenciam a saúde ou o contato com serviços de saúde, entre os problemas relacionados ao emprego e desemprego. (Bruna Varella, dráuziovarella.uol)

Dentro disso, alguns especialistas demonstram que para ter uma vida saudável é necessário dormir bem, comer bem, fazer exercícios, manter boas relações e trabalhar dentro dos seus limites, mas esses limites são respeitados? Como foi a história de vida do indivíduo? Como ele foi ensinado a viver? É possível pensar em qualidade de vida sem antes pensar na cultura em que ele está inserido? É uma cultura que visa a coletividade ou a individualidade?

Bom, é através desses questionamentos que o texto a seguir foi desenvolvido.

A sociedade pós moderna tem grande influência sobre o processo de ser no mundo, pois desde o processo neoliberal ocorrido no país o trabalho se tornou o foco primordial para o desenvolvimento do indivíduo, ou seja, desde pequeno ele é ensinado a ir de encontro ao mercado de trabalho.

O trabalho como forma de esgotamento emocional

As escolas, por exemplo, não educam o indivíduo para libertar-se, ao contrário: o ensinam a ser funcional. Nesse sentido, e aprofundando mais essa questão, os ideais faça por si mesmo, ou sejam dono do próprio negócio, ou trabalhe enquanto eles dormem se tornam comportamentos que geram o esgotamento emocional, pois outras esferas da vida vão sendo aos poucos deixadas de lado.

Sem sombra de dúvida essa cultura para além de promover o esgotamento emocional também promove a exclusão, pois aqueles que não são aptos ou que não tiveram as mesmas oportunidades para o mercado de trabalho são excluídos. 

Contudo, torna-se um modo de produção que visa apenas o capital e afasta o indivíduo do contato consigo mesmo e do contato com o outro.

Byung-chul Han autor do livro Sociedade do Cansaço descreve o panorama dessa sociedade atual, pós moderna e tecnológica. Segundo ele, o ser humano perdeu contato consigo mesmo, tornando a vida humana em vida selvagem na qual a produção e o comportamento multitarefas dilacera a existência, a essência, ou melhor dizendo o ser si mesmo para o mundo. Desse modo, quando o mundo invade o indivíduo ele perde o contato consigo mesmo e esse comportamento pode vir a ser um movimento para o sintoma ou doença. 

Considerando a aumento de casos de indivíduos com Síndrome de Bornout, o livro em si retrata bem o contexto desse caminho, o autor revela que o sujeito tem perdido a estranheza, como exemplo a estranheza de um chefe abusivo, a estranheza de uma agenda cheia, a estranheza de ser positivo o tempo inteiro e com isso ele deixa de ensinar o corpo a se defender.

O autor se debruça também sobre a positividade tóxica que retira do homem a capacidade de olhar para os momentos negativos, ou seja, o foco somente na alegria tira o foco da tristeza, entretanto, o ser humano é constituído por sentimentos como alegria, tristeza, raiva, ódio, culpa, frustração e assim sucessivamente. 

Compreender o limitar entre felicidade e positividade tóxica é o que precisa ser discutido atualmente, pois ser positivo o tempo inteiro afasta o individuo do contato com a dor, e a dor também faz parte do humano, assim como a angústia, a tristeza e a culpa. 

Sendo assim é interessante constatar que tais adventos sociais e culturais são grandes reforçadores de uma sociedade que está ficando cada vez mais doente, ou seja, o adoecimento ou exclusão ocorre por não pensar o coletivo, mas por ser promovido todos os dias a cultura individualista. 

É possível ser saudável numa cultura que individualiza?

Ser o próprio provedor é importante, assim como ser responsável por si e por suas escolhas também, mas quando esses ideais se tornam só e unicamente pra manter uma cultura de exclusão e do faça por si mesmo, desse modo atropelando os outros, é preciso ser questionado, pois é esse processo que gera o sintoma. 

Nesse sentido a empatia, a compaixão, a solidariedade e o sentimento de coletividade vão sendo mascarados, mas o ser humano é um ser-relação e nasce e se constitui através de redes de relações e afetos, ou seja, como é possível ser saudável numa cultura que individualiza e não coletiviza? 

Sobretudo, o filme Divertidamente é um exemplo para a compreensão das emoções e dos afetos, pois através da personagem Riley é demonstrado a importância também da tristeza para poder ser, na qual a mesma estava entrando num processo depressivo por segurar a dor pela mudança que ocorreu em sua vida. Ou seja, o ser humano é constituído por emoções e excesso de positividade, a busca pela funcionalidade individual ou a busca por um humano perfeito é utópico, pois são as emoções, as relações e os afetos que constituem o indivíduo e é preciso percebe-las para ter um estado mental saudável. 

A ajuda que a terapia pode oferecer

Contudo, a terapia pode ser uma ferramenta ideal para compreensão desse contato consigo mesmo, e se você se encontra nesse processo no qual o mundo te invade e faz com que você se perca em si mesmo e funcione somente com o intuito de ser mais, barrando a vida em si, as relações, o lazer, o afeto, ou seja, o contato humano com o mundo, busque uma escuta ativa e permita-se abrir seus pensamentos para todos os ângulos que englobam o ser humano para ir de encontro à sua essência.

O ser humano é holístico e não apenas uma ferramenta de trabalho.

Por fim, ressalto: é Síndrome de Burnout, positividade tóxica ou excesso de trabalho, e acrescento, é a falta do encontro consigo mesmo num mundo criado pra uma ideal de meritocracia ou o faça por si mesmo, são sobre suas escolhas ou sobre o que o mundo diz pra você fazer, é sobre você ou sobre o mundo, afinal, você é e sempre vai ser um ser que se relacionado com o mundo. 

Bibliografia

  1. HAN, Byung-chul – Sociedade do Cansaço. Petrópolis, RJ. Editora Vozes, 2017.
  2. Bruna, Varella Helena Maria – Drauzio Varella – Doenças e Sintomas, UOL. <https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/sindrome-de-burnout-esgotamento-profissional/>  Acesso em: 05 de agosto de 2021
EVELIN APARECIDA A DA SILVA
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