Família

Ter ou não ter filho: eis a questão!

Escrevi este texto alguns meses após o nascimento da minha filha. Ele visa auxiliar na tomada de decisão de quem está pensando em ter o primeiro filho e/ou auxiliar os pais que não têm real noção do que os aguarda. Exponho algumas ocorrências comuns para pais de primeira viagem, pois não é só o baby que nasce, nós nascemos também como mãe/pai. 

Busquei trazer tanto minha visão oriunda da experiência profissional (atendimento psicológico de mulheres grávidas no setor perinatal no Hospital Pedro Ernesto ou da clínica particular), como também a minha vivência como mulher nesse novo papel que ocupo há quatro anos: o de mãe de primeira viagem.

O que você diz para quem está em dúvida sobre ter filhos?

Uma pergunta que se repete desde que me tornei mãe. Escrevi o texto em forma de tópicos, para ficar mais fácil a leitura.

  • Criar e educar uma criança é uma das tarefas mais difíceis na vida, ora estressante e ora recompensador. Uma boa dica para ter uma leve noção do que isso representa, cuide de um ou mais animais de estimação, se você não tiver paciência ou achar muito trabalhosa essa missão – que é bem menos complexo do que cuidar de uma criança – não tenha filhos! Fará um bem a você e a humanidade 😌😁 Por que digo isso? 

 

  • Criar filhos não se resume em alimentá-los, colocar na escola, dar presentes e viajar nas férias, é muito mais que isso! Crianças precisam de cuidado, atenção, carinho constante, direcionamento (saber dizer “Não” e sustentar esse “não”, sem precisar ser violento); ter disponibilidade com uma dose imensa de paciência. Pais sem paciência (nervosinhos) tendem a ser violentos (física e/ou psicologicamente) durante períodos de estresse. E o que isso pode acarretar? Filhos problemáticos! Quando falo “problemáticos” pode ser desde crianças com graves transtornos emocionais até com problemas comportamentais sérios. Pelo bem da sua saúde física/mental e do futuro da humanidade, reflita muito sobre isso, pois é um caminho sem volta.

 

  • Outra forma de tirar dúvidas é fazer um estágio vivencial: uma coisa é ver os outros cuidando dos filhos, e outra realidade é você passar algumas horas cuidando de uma criança. Sugiro que faça esse estágio como o meu irmão fez. 😆 Cuide de um bebê por algumas horas em diferentes momentos. Após viver a experiência e observar a dinâmica da família com o bebê, refaça essa pergunta a si mesmo – imaginando que esse estágio que você vivenciou por algumas horas durará anos em sua vida. Essa prática o ajudará a tomar uma decisão mais consciente e sem fantasias. Às vezes precisamos vivenciar algo ou sentir na pele para ter real noção de algumas situações da vida. Você deve estar se perguntando: E o seu irmão, Daniele?– ele decidiu que é mais fácil cuidar dos seus 20 gatinhos, do que cuidar de uma baby; por enquanto ser pai de um baby humano está suspenso dos projetos dele.

 

  • Antes de ter filhos, conforme disse meu marido a um amigo, faça uma lista de tudo que deseja fazer sem filhos: obra em casa ou um mochilão na América do Sul etc. Visto que, após tê-los, projetos serão adiados por alguns longos anos, e outros vão ter que ficar para próxima “encarnação”. Será que você vai aguentar abrir mão de algo (que pode ser definitivo), sem culpabilizar seu filho por suas frustrações? 

 

Obs.: Responsabilize-se por suas escolhas, pois a culpa será somente sua e do parceiro – sexo sem prevenção também é escolha! Não jogue no filhote suas culpas e frustrações, pois el@ não pediu pra nascer. 😫 Digo isso, pois já ouvi muito do que acabei de escrever. Obs2: Casos em que métodos contraceptivos falham, não é escolha!

 

  • O desejo de ter um filho é seu ou você está sendo levada(o) pela pressão familiar ou do meio social? Se for pela pressão, saiba que após nascer, toda a responsabilidade será sua e os demais que colocaram pressão vão continuar suas vidas e assim que passar a novidade “é seu, que cuide!”. Na maioria dos casos que escutei de pacientes, aconteceu isso. Hoje em dia, a pressão social está bem menor, então pare de arrumar problemas dando “Não” para você para dizer “Sim” aos outros. Mude e diga “SIM” para você e “NÃO” aos outros. Faça apenas se for seu real desejo e não para saciar o desejo dos outros, pois você será a(o) principal responsável por tudo e qualquer coisa que acontecer com seu filh@.

 

  • Filho não salva relação. Se pensa em ter filho para melhorar uma relação, o efeito será oposto. A relação muda com a chegada de um filho, a liberdade que existe em uma relação de casal deixa de existir, entre outras mudanças. Não se pode colocar tamanha responsabilidade em uma criança que nem nasceu, pois em primeiro lugar, não conseguirá salvar a relação de casal, e em segundo, novos problemas na relação homem e mulher irão surgir e no meio disso tudo, um inocente.

 

  • Quem deseja ter filhos, sugiro que os tenha o mais tarde possível, após os 30 anos. Faça tudo que tem de fazer em relação à trabalho, estudos e viagens, pois o tempo lhe trará maturidade para criar e lidar com a situação de uma forma bem melhor do que alguém muito jovem. Ter filhos não é essa maravilha toda que se prega na TV; é literalmente “padecer no paraíso”, melhor dizendo, na “vida real”. As flores têm espinhos que machucam, e na TV os espinhos não são mostrados, entendeu? 

 

Os primeiros 3 meses após o nascimento são terríveis para alguns pais bem mais que para outros, devido aos fatores a seguir:

  • As cólicas sofridas que os bebês têm nessa fase (o sistema gastrointestinal do baby está se acostumando com o leite), esse processo é bastante doloroso no bebê e os pais sofrem por tabela. 
  • Nesse período, está ocorrendo a adaptação da família com o bebê e o baby que também está tendo que se adaptar a um novo mundo. E o que tudo isso significa? Muitas noites sem dormir direito, muito cansaço físico e mental, principalmente para a mãe que precisa amamentar. No meu caso, não sabia o que era dormir bem desde os sete meses de gestação, pois tive que dormir sentada para não ter refluxo – por duas vezes acordei engasgada e em uma, quase aconteceu o pior.
  • Alguém com mais experiência na maternidade me disse há algum tempo “Dormir como antes? Isso não te pertence mais!” – Então saiba, de fato o seu sono nunca mais será igual ao de antes, seja pelo cansaço ou pela preocupação da responsabilidade em criar um outro ser humano. Ter filhos é algo muito complexo e difícil, por isso a educação sexual para jovens deveria tratar essa questão, pois há uma idealização cultural sobre ter filhos, isso não é nada fácil e perfeito como aparece na TV.

 

  • Ter filhos é a maior e mais longa aventura na vida de uma pessoa, isso quer dizer: existirão momentos maravilhosos, outros serão muito cansativos e estressantes. Cada dia na rotina do cuidar haverá uma novidade para ser apreciada – a fase do desenvolvimento infantil é algo fascinante em testemunhar. Tornar-se parentais (pais) significa viver um retorno simbólico à sua infância, toda experiência com a cria é algo psiquicamente profundo para os pais, alguns têm consciência do processo enquanto outros não, mas todos passam por esse “retorno” e isso traz uma mudança irreversível no psiquismo de ambos. 

Como psicóloga, curto muito e aprecio cada etapa da minha filhota. Contudo, para ser maravilhoso tem que existir a vontade de vivenciar isso, além de disponibilidade, muitas vezes perde-se essa parte incrível, que é de suma importância para o desenvolvimento emocional da criança e recompensador para os pais.

 

  • Após o filho nascer, as preocupações crescem vertiginosamente, os medos também e haja terapia! Antes eu me virava bem e minhas preocupações eram trabalho/estudos e relacionamento, agora além destes, tenho que focar (preocupar) 24 horas com o bem-estar da minha filha e o futuro dela; a responsabilidade e o desgaste mental/emocional em criar um filho é imenso: pensar nos menores detalhes e continuar pensando, dormir muito cansada e acordar menos cansada, menos é diferente de descansada. 

 

  • Como eu disse, não é uma escolha fácil decidir essa questão, pois terá que renunciar a muitas coisas por longo período de sua vida e/ou abrir mão definitivamente; além de ser algo extremamente caro em muitos sentidos (financeiro/físico e emocional). As mudanças acontecem como um todo, seja externa como internamente, tudo muda: a dinâmica da família, do casal, o “olhar” sobre a vida e você mesmo torna-se diferente, em muitos sentidos – pois junta-se a bagagem emocional de todas as questões não resolvidas da sua vida com a fase nova, entende? Devido a isso, podem surgir problemas emocionais graves, como depressão pós-parto; algumas pessoas passam por um processo de retificação da infância, terapia ajuda muito quando esse ciclo de transformações está emocionalmente intenso. Não hesite em procurar terapia presencial ou online se não estiver conseguindo dar conta.                    

Dicas importantes para os que já decidiram ou já estão aguardando o baby

  • Mulher (mãe): seu corpo mudará drasticamente durante e após a gestação, então cuide de seu emocional para conseguir lidar “melhor” com essas mudanças e com os hormônios, que vão te deixar algumas vezes doidinha: crises de risos ou de choro, com ou sem motivos, não se assuste pois é algo normal. Carência e dependência também podem rolar; medos diversos, como das mudanças que estão a caminho, da saúde do bebê, formação do feto, risco gestacional – sua mente vai criar muitos monstros, mas pense positivo e procure uma psicóloga nesse processo, vai ajudá-la muito! 

 

  • Mulher (mãe): Surgirão muitos desejos novos, alguns absurdos, como você odiar comer algo por toda sua vida e, durante, a gestação aquilo ser o que há de melhor no mundo (aconteceu comigo! 😆). 

 

  • A questão da libido, algumas mulheres durante a gestação perdem o tesão, enquanto outras aumentam drasticamente, e ainda tem o grupo que alterna as duas fases; converse com seu parceiro sobre isso, prepará-lo para o que vai acontecer vai lhe poupar de problemas. Após o nascimento e resguardo, busque dividir tarefas com o companheiro, para sobrar energia para momentos íntimos – uma mãe cansada só tem energia para cuidar do filho e com ajuda do maridão, terá mais energia para curtir seu parceiro também.

 

  • Homens ou parceiras: sejam companheiros durante a gestação e após, na amamentação. A gestante terá crises emocionais devido aos hormônios em ebulição nessas duas fases, tenha muita paciência e dê bastante carinho. Evitar estresse é o que ela e o baby mais precisam. Sugiro que o casal faça meditação juntos. É uma ótima forma de auxiliar a saúde mental de ambos.

 

  • Homens ou parceiras: tenha consciência que ficará sem sexo por um longo período, pois sua esposa estará impossibilitada de fazer, e quando retornarem à ativa, existe uma grande chance de a frequência e o fogo sexual não ser como era antes, isso é perfeitamente normal! A quantidade de energia que se gasta para cuidar de um bebê nos primeiros três meses diminui qualquer libido (energia sexual). Então, se você for ativo no processo de cuidar da criança e também da casa, terá mais chances da vida sexual voltar com qualidade. 

 

  • Importante frisar que tudo muda após um filho, a relação do casal principalmente, a mulher estará focada exclusivamente na sua cria durante os primeiros meses. Se após alguns meses, ela continuar ausente da vida intima de casal, converse com ela e se for o caso, procure ajuda de um profissional de psicologia especializado em terapia de casal/família, tal como eu 😉

 

  • Importante os pais buscarem uma rede de apoio (familiares ou amigos), para dar suporte em caso de não estarem dando conta no início do processo, ou mesmo, para ter uma folga do baby e sair para curtir um ao outro – o casal precisa buscar ter momentos sozinhos para distrair e se curtir (vale night).

         

“E se rolar arrependimento após o nascimento?” 

Em momentos de cansaço extremo e estresse, alguns pensamentos poderão brotar “Aonde eu estava com a cabeça?“… Não se preocupe, absolutamente normal pensar nisso em alguns momentos na fase inicial de adaptação; geralmente, ao descansar um pouco e relaxar a mente, ver o seu baby e sentir 💗 tudo normaliza. Se não acontecer a mudança de pensamento, procure ajuda de um profissional da saúde mental.

Ter filho é algo mágico e sublime, quando se deseja tê-los. Tem que estar consciente das correntezas do trajeto dessa viagem, pois é uma aventura eterna com perigos, problemas e muitos prazeres. Nem todos estão preparados e/ou desejam navegar nessa viagem, e é algo perfeitamente normal, é uma escolha de viver a vida da forma mais saudável que sua consciência mandar.

Se me perguntarem se me arrependo, digo que foi a mais difícil e MELHOR decisão da minha vida! A maternidade foi uma verdadeira iniciação de uma ordem oculta da natureza ♥ algo que jamais imaginei.

Amadureci de uma forma ímpar e aprendo a cada dia com minha pequena a ser um ser humano melhor. Não é nada fácil, mas é sublime e me sinto a serviço de algo maior que começou lá atrás com meus ancestrais.  

Espero que este texto o ajude na decisão mais importante da sua vida.

 

Psicóloga Daniele Lopes CRP 05/50429

Especialista em Terapia de Casal e Família (IPUB/UFRJ)

https://www.psicologiaviva.com.br/psicologos/daniele/

 

Referências:

Psicologia da Gravidez, Parto e Puerpério por Raquel Soifer.

Psicologia da gravidez: Gestando pessoas para uma sociedade melhor por Maria Tereza Maldonado.

Daniele lopes da silva
Últimos posts por Daniele lopes da silva (exibir todos)
Etiquetas

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar