Psicologia geral

Psicologia, sexualidade e gênero: a experiência de ser pessoa trans no Brasil

Ser pessoa transexual ou transgênero deixou de ser considerado doença mental pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019, depois de muitas lutas e reivindicações de direitos pelos movimentos sociais. Entretanto, a realidade social brasileira é cruel e permanece atacando a vida das pessoas transexuais, travestis e transgêneras cotidianamente. Se essa pessoa trans for negra e pobre, a situação é ainda pior.

Observe abaixo, no mapa organizado pela organização Transgender Europe (TGEU), o levantamento de dados que demonstram que o Brasil é líder no ranking de países que mais matam pessoas trans pelo mundo. Foram 71 países monitorados entre janeiro de 2008 e setembro de 2017, totalizando 2.609 mortes de pessoas trans no mundo. No Brasil, 1.071 pessoas tiveram suas vidas tiradas pela transfobia

Considere que no máximo 1% da população se identifica como pessoa trans e faça as contas. A balança é extremamente descompensada e a existência da população trans completamente apagada. A expectativa de vida das pessoas trans é de 35 anos, enquanto a da população geral brasileira é de 75 anos, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Leve ainda em consideração que muitas das mortes não são contadas e os dados são subnotificados, pois a identidade de gênero das pessoas trans não é respeitada nem na morte. Se você ainda não entendeu a importância de falar sobre a existência trans, releia.

Identidade, expressão ou ideologia de gênero?

Antes de falarmos um pouco sobre como é ser trans, é importante relembrar o que é identidade e expressão de gênero. Identidade de gênero é o sentido profundo de ser, um sentimento identitário, a respeito do seu modo de existência e em relação ao gênero.

Gênero, socialmente, é uma identificação construída em duas bases sociais principais: o que é ser masculino e o que é ser feminino. Apesar de ter sido normatizado nessa binaridade masculino-feminino, o gênero é atualmente considerado um espectro diverso e plural. Suas expressões perpassam as identidades de ser mulher cis, homem cis, travesti, mulher trans, homem trans e não-bináries, entre outras.

Quando falamos que uma pessoa é cisgênera, isso significa que essa pessoa, ao longo de sua vida, continuou se identificando com o gênero atribuído a ela no seu nascimento. Já quando dizemos que uma pessoa é transgênera, diz respeito à experiência de uma pessoa que, ao longo de sua vida, identificou-se com outra identidade de gênero que não aquela que lhe foi imposta ao nascer.

Se tem alguma coisa que pode ser considerada “ideologia de gênero”, no sentido normatizador e opressivo, é a cisgeneridade compulsória. Ou seja, a imposição violenta da ideia de que uma pessoa, por nascer com um determinado corpo, especificamente um determinado genital, é desse ou daquele gênero.

Ser pessoa trans e expressar essa identidade de forma plural e potencial não configura um atentado à vida humana. Matar e suicidar pessoas trans todos os dias em nome de uma crença ultrapassada, isso sim, é um atentado.

A existência de pessoas trans é um acontecimento moderno?

Não! As pessoas trans possuem ancestralidade. Sua potência caminha junto com o desenvolvimento da humanidade, desde os primórdios do tempo humano. Infelizmente, essa ancestralidade sofreu tentativas de apagamento violentas, por conta dos processos civilizatórios e coloniais que produziram a invisibilização dessa pluralidade de gênero ao redor do mundo.  

Quer saber mais sobre o resgate histórico dessa ancestralidade? Acompanhe os trabalhos da travesti preta Dra. Megg Rayara Gomes de Oliveira e da mulher trans preta Dra. Jaqueline Gomes de Jesus, são duas pesquisadoras importantes e que resgatam e valorizam essa história.

Desde divindades milenares, povos indígenas brasileiros que expressavam uma diversidade de gênero, Hijras na Índia até homens trans que participaram da Guerra Civil nos Estados Unidos, as pessoas trans aparecem ao longo da história.

Trabalho de resgate publicado nas redes sociais da Dra. Megg Rayara Gomes de Oliveira

 

Saúde mental e dignidade da pessoa trans

Exigir saúde mental excelente da população trans quando não se garante sua dignidade, sua educação, suporte familiar, econômico e respeito é opressivo. A existência das pessoas trans é desvalidada, desqualificada e desumanizada cotidianamente.

Isto é, são expulsas da escola, do ambiente de trabalho, da família, possuem seu nome e pronome desrespeitados todos os dias. Às vezes, nem mesmo os banheiros, para suas necessidades mais básicas, podem usar. Imagine ter infecções urinárias graves por ser expulso do banheiro!? Se conseguir chegar a entrar nele.

Chamo atenção para essas situações para que você, principalmente se você for uma pessoa cisgênera, entenda a importância de rever seus posicionamentos acerca da questão de gênero. Como uma pessoa, sendo ameaçada de violência todos os dias e nas coisas mais básicas do dia a dia, pode viver sem medo e com boa autoestima? A comunidade trans está cansada de ser atacada e morta no Brasil.

Por isso, precisamos ser aliados para que possamos criar, conjuntamente, condições de existências dignas para todos, especialmente para as pessoas trans. Toda existência é potente e deve ter dignidade, com seus direitos humanos resguardados. A luta é de todos. Comece se educando e, quem sabe, junte-se à causa de modo mais próximo, participando dos eventos e movimentos impulsionados por ONGs e coletivos formados por pessoas trans.

Ser trans é potente

Seja aliado das causas das pessoas LGBTI+, da comunidade trans, das causas indígenas, da luta antirracista e abrace a pluralidade das existências humanas. Se você ainda tem dúvidas, procure ajuda, pesquise, pergunte e se engaje. As mudanças começam do micro para o macro social.   

Se você é uma pessoa trans ou LGBTI+, você não está e não precisa estar só. Busque ajuda e se reúna com os seus pares.

Se estiver sofrendo emocionalmente, procure suporte psicológico adequado, com um profissional de Psicologia que esteja preparado para lhe acolher, compreender e ajudar. Caso sofra qualquer tipo de violência ou opressão social, disque 100 para o Disque Direitos Humanos. Denuncie! Sua denúncia é importante para que possamos mudar o cenário brasileiro.

Desejo que se cuide e fique bem! 

 

Matheo Bernardino – CRP-08/25791

(Psicólogo clínico de abordagem humanista-existencial) 

Matheo Bernardino
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