Saúde

Tristeza de verão

O Transtorno Afetivo Sazonal (Seasonal Affective Disorder, SAD, em inglês, cuja a sigla tem, coincidentemente, a mesma grafia da palavra para “triste” nessa língua) é um tipo de transtorno depressivo maior. Ele é mais conhecido em países com as estações do ano bem marcadas e invernos mais rigorosos. Este transtorno, em geral, se manifesta mais frequentemente nas estações do outono e do inverno, quando as temperaturas caem e a luminosidade natural diminui, mas existem outras variações que falaremos mais adiante.

Padrão Sazonal do Tipo Inverno

O Transtorno Afetivo Sazonal (TAS), não aparece com esse nome no Manual Diagnóstico de Transtorno Mentais – DSM-5. No DSM-5 ele é descrito como padrão sazonal do tipo inverno, um especificador aplicado ao transtorno depressivo maior. O DSM-5 traz que esse padrão parece variar com a latitude, a idade e o sexo, havendo indícios de que o transtorno seria mais prevalente em: latitudes maiores, ou seja, lugares com invernos mais rigoroso; pessoas mais jovens; e do sexo feminino.

Em termos populacionais, segundo a UCI Health, 5% dos americanos é afetada pelo TAS durante o inverno. A prevalência desse transtorno durante os meses mais frios se daria devido ao efeito que temperaturas mais baixas e uma menor exposição à iluminação natural teriam na diminuição da produção de vitamina D, o que consequentemente afetaria o metabolismo e o humor. As pessoas ficariam mais sonolentas e cansadas durante o dia, tendendo a comer mais e ganhar peso.

O Summer Blues (tristeza de verão)

No entanto, existe uma face do Transtorno Afetivo Sazonal que acaba sendo pouco falada: o “summer blues”, ou tristeza de verão em tradução livre. Isso acontece porque a parcela de pessoas atingidas pelo transtorno no verão seria bem menor. A Health Enews afirma que apenas 1 em cada 10 pessoas que sofrem desse transtorno o experienciam nos meses mais quentes. Porém no Brasil, onde o verão tende a ser mais longo e quente na maior parte do seu território, seria interessante se observar se esse padrão não se manifestaria de forma diferente, havendo um maior número de pessoas afetadas nos períodos de temperaturas mais altas e com maior incidência solar.

O artigo do UCI Health traz maiores chances de se sofrer de TAS no verão, e isso está ligado a fatores genéticos, sexuais e geográficos. Há uma maior tendência de se manifestar essa variação do transtorno se houver histórico familiar, o indivíduo for do sexo feminino e viver próximo ao equador, onde, não por acaso, os verões são mais intensos.

De acordo com o Health Enews, os cinco sinais de que a pessoa estaria sofrendo de “Summer Blues” seriam:

  1. Sentir que o sol está drenando sua energia. O que não seria, obviamente, literal, mas teria haver com uma produção diminuída de melatonina, afetando dessa forma a regulação de humor;
  2. Sofrer um aumento na dificuldade para dormir. Isso também estaria ligado a diminuição da produção de melatonina, já que a pessoa teria mais horas de sol disponíveis – além da exposição já bastante alta à iluminação artificial de lâmpadas e telas. A quantidade de luz extra se somaria ao excesso de iluminação artificial para alterar os padrões de sono;
  3. Estar constantemente de mal humor ou preocupado com algo. Essa sensação pode ser amplificada no verão devido à alteração na humidade do ar e ao aumento da temperatura;
  4. Estar se sentindo mais ansioso. O fato de termos mais atividades ao ar livre no verão, também afeta a questão de que as pessoas tendem a se aglomerar mais em festas e eventos, lugares onde pode se sentir mais abafado, sufocado e suar mais, o que contribui para um aumento de uma sensação geral de mal-estar, gerando sintomas de ansiedade;
  5. Sofrer perda de apetite, já que o estresse e a ansiedade fariam com que a pessoa tivesse uma sensação diminuída de fome.

Claro que para cada um desses fatores existem medidas simples que podem ser tomadas para se diminuir os sintomas. As pessoas afetadas – e as não afetadas também, já que são medidas básicas para se garantir um maior conforto físico quando as temperaturas sobem – devem procurar usar óculos escuros, vestir roupas leves, manter-se hidratadas, evitar lugares muito iluminados e telas luminosas próximo ao horário de dormir, evitar aglomerações e lugares mal ventilados e procurar fazer refeições leves, incluindo frutas e saladas.

Antes de concluir que se está sofrendo de “Summer Blues”, é importante observar a frequência e a intensidade dos sintomas e se eles diminuem quando tomadas as medidas citadas no parágrafo acima. Além disso, segundo o UCI Health, é preciso sofrer de depressão por pelo menos duas estações consecutivas para ser diagnosticado com TAS. Lembrando-se que a incidência de pessoas que manifestam o Transtorno Sazonal no verão é baixa, o que existe, na maioria das vezes, é uma grande possibilidade de que você esteja apenas triste e irritado com o verão.

No verão, existe a mandatoriedade da alegria. As propagandas, as redes sociais, as festas entre outras coisas demandam que todos estejam na praia, de férias, felizes e bronzeados. Também se espera que todos estejam o mais em forma possível para usar pouca roupa e que todos amem o sol e o calor. Mas sabe-se que tudo aquilo que é obrigatório tende a causar ansiedade e frustração.

Nem todos estão nessas condições ideais para “viver o verão”. A não ser que você ainda seja uma criança em período escolar, já se foi o tempo em que tínhamos férias garantidas no mês de janeiro. Muitos não conseguem parar de trabalhar nessa época do ano, restando apenas os fins de semanas e feriados para viver o verão em toda sua intensidade – isso para aqueles que não precisam trabalhar fins de semana e feriados, é claro.

Pessoas que estão com o corpo considerado fora do padrão também tendem a sofrer uma maior pressão nessa época do ano, já que as vestimentas tendem a ser mais reveladoras e as roupa de banho passam a ocupar um lugar de destaque em lojas, editoriais de moda e stories de influencers diversos. A demanda para que a pessoa esteja com um “corpo de verão” faz com que muita gente embarque em dietas de última hora e programas de exercícios exagerados no período próximo ao verão, o que por si só pode gerar vários prejuízos à saúde física e mental.

Outro fator a se notar é que nem todas as pessoas vivem no litoral ou dispõem de condições para viajar para locais de veraneio, tendo que passar verão nos mesmos lugares em que passam todas as outras épocas do ano, sem acesso aos eventos e às experiências amplamente divulgadas nas mídias e redes sociais. Somado a tudo isso, algumas pessoas têm baixa tolerância ao calor, sofrendo de muitos mal-estares quando expostas a altas temperaturas.

Sendo assim, não é incomum que as pessoas se sintam pior no verão: mais ansiosas, mais frustradas, mais deslocadas, entre outras coisas. A obrigatoriedade da alegria e da busca pela diversão pode ser um grande fator estressor. Olhar em volta e sentir que todos estão se divertindo e com bem-estar, menos você, pode não ser algo tão único assim.

Independentemente de se estar sofrendo um transtorno, ou se você está apenas sentindo mal por não estar dentro do clima do verão, procurar ajuda profissional é essencial para garantir uma boa saúde mental em qualquer época do ano, não só nas consideras mais sombrias.

Andréa Batista Matta

Referências

  1. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION – APA. Manual diagnóstico de transtorno mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.
  2. 5 signs you have the “summer blues”. Health Enews, 2021. Disponível em: <https://www.ahchealthenews.com/2021/06/15/5-signs-summer-blues/> . Acesso em: 05 de jan. de 2022.
  3. SUMMERTIME blues are really a thing. UCI Health, 30 de Jul. de 2019. Disponível em: <https://www.ucihealth.org/blog/2019/07/summer-sad> . Acesso em: 05 de jan. de 2022.
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