Desenvolvimento pessoal

Vença desafios e use-os para o seu aprimoramento pessoal

Houve desde o início da pandemia grandes mudanças em nossas vidas cotidianas, além de um confronto duro com nossa finitude, trazendo várias incertezas diante do futuro. Sem nenhuma dúvida, um período nebuloso de escala global. Mas e se pensássemos, cada um de nós, como donos de um mundo particular e subjetivo, será que, independentemente da escala social de uma crise, estaríamos marcados por dificuldades ao decorrer de nossa vida particular? Desafios, dificuldades, crises ou mesmo tragédias estão presentes no cenário particular de cada um, é algo inerente à vida humana, gostemos ou não; mas será que não existiria uma maneira para lidarmos melhor com nossas dificuldades e tornar nosso sofrimento suportável, ou melhor, como uma motriz para aprimoramento pessoal de vida

Será que estou vivendo minha vida como gostaria? 

Nossas dificuldades devem ser a força que impulsiona a pergunta: Será que estou vivendo minha vida como gostaria? 

Será que abandonei crenças e sonhos que eram tão importantes para mim? Será que perdi sentimentos que eram tão especiais? Estou compartilhando com pessoas queridas momentos importantes? Minhas prioridades são coisas que fazem com que me sentia bem

Perguntas estas que recordam o valor da vida, descrito no conhecido diálogo socrático Fédon, escrito por Platão. Sócrates, protagonista do diálogo, diz que a vida deve ser um ato coerente, guiado por seus valores e crenças unificados como um caminho a ser seguido até o fim. Nossa vida subjetiva deve ter, como objetivo, valores nobres, altruístas, que devem superar a regressão freudiana descrita no livro de Viktor Frankl, Um Sentido Para a Vida.

Viktor Frankl e o campo de concentração nazista

Este livro que descreve a experiência real do autor vivendo em um campo de concentração, o lugar mais inóspito do mundo durante a II Guerra Mundial, lugar de sofrimento e fome, e, ainda assim, o autor consegue encontrar momentos de felicidade e plenitude. Seus colegas, treinados em psicanálise e destinados ao mesmo campo de concentração junto a Viktor Frankl, falam sobre uma regressão vivenciada pelos prisioneiros no campo de concentração; um retorno para uma forma mais primitiva de vida mental, onde seus sonhos refletem, não mais, que desejos momentâneos de alívio e satisfação. 

Na contramão do que pensaríamos, Viktor Frankl encontra no campo de concentração não a descrença total na humanidade, como descrita por Freud em O Mal Estar da Civilização, onde a humanidade é descrita como destrutiva e agressiva por natureza; mas, o que Frankl percebe é um fenômeno completamente antagônico. 

Algumas pessoas, mesmo retiradas de seus lares, com suas identidades aniquiladas, restando apenas números de identificação e a possibilidade de nunca reencontrarem seus familiares, conseguiram fazer escolhas altruístas, como dividir sua própria ração diária com colegas, mesmo estando famintos. Escolhas morais acima da própria situação dos entornos, onde o mundo desfazia-se em pedaços pela violência e falta de empatia, essas pessoas se mostravam firmes em suas convicções e crenças interiores. Em contravenção da noção que os seres humanos são completamente influenciados pelo seu meio, o autor menciona existir sempre a chance de ação de cada indivíduo, onde podem superar stress psicológico e físico, tendo liberdade espiritual e uma mente independente nas piores situações. Somos resultado de um acidente causal biológico, social e psicológico, sem nenhuma escolha? 

Além da possibilidade da liberdade mental e espiritual citada por Viktor Frankl, ele pôde constatar que aqueles prisioneiros altruístas, e que conseguiam sobrepor o ambiente, possuíam um sentido para o qual viviam, isso não só tornava seus momentos mais suportáveis, como também eram aqueles que sobreviviam ao cotidiano de stress físico, emocional e psicológico do campo de concentração em Dachau. 

Como o estado de espírito é essencial para a manutenção do bem-estar e da saúde

Segundo a APA American Psychological Association (Associação Americana de Psicologia), estudos feitos por Psiconeuroimunologistas afirmam que o estado mental do indivíduo pode afetar de maneira drástica sua saúde. Pesquisas feitas pela psicóloga Janice Kiecolt-Glaser e pelo imunologista Robert Glaser, ambos da Ohio State University College of Medicine (Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Ohio) demonstraram que estudantes, durante seus períodos importantes de exame na universidade, tinham sua imunidade drasticamente afetada pelo stress, resultante dos exames universitários que colocavam em jogo sua aprovação. Foi constatada uma diminuição de células responsáveis pela defesa do organismo quando exposto ao stress crônico. Também um estudo feito por Lyanne McGuire, da John Hopkins School of Medicine (Faculdade de Medicina da Universidade John Hopkins) com Kiecolt-Glaser e Glaser, identificou que pessoas com depressão clínica, mesmo leve, possuíam uma resposta mais fraca das células T (células do sistema imunológico responsáveis pela defesa do organismo humano) contra agentes desconhecidos; ficando, assim, evidente que a maneira como lidamos com nossas dificuldades e obstáculos cotidianos pode, sim, afetar nosso bem-estar físico e psicológico: nosso estado de espírito é um componente essencial para a manutenção do bem-estar e da saúde. 

Segundo Frankl: “Aqueles que sabem quão próxima é a conexão entre o estado mental de um homem – sua coragem – e esperança, ou falta delas – e o estado de imunidade do seu corpo irão entender que uma súbita perda de esperança e coragem pode ter um efeito mortal” (FRANKL, 1984, p. 96, tradução nossa).

Você já tem planos para o futuro? Objetivos que, mesmo enfrentando adversidades, perduram até os dias atuais? Você está assumindo as responsabilidades das tarefas e desafios colocados em seu percurso? Nosso bemestar e saúde dependem da nossa projeção para objetivos futuros, somados a uma conduta coerente em sintonia com nossas crenças.

Primeiro, nossos objetivos devem ser realizáveis, ou seja, devem ser possíveis de acordo com a realidade de cada um, mas não como uma limitação, e sim como uma tomada de conscîencia da realidade; segundo, devem ser graduais, em ordem crescente do mais fácil de se atingir até o mais complexo. Por último, o aprimoramento do nosso autoconhecimento, através da introspecção ou guiado pelo auxílio de uma psicoterapia, é a pedra fundamental para direcionarmos nossos objetivos de vida. É correto dizer que quanto mais sabemos quem somos, mais sabemos o que queremos; segundo Séneca: “Quando um homem não sabe para qual porto está indo, nenhum vento é o vento certo (Seneca the Younger, Letter LXXI : On the supreme good, line 3, tradução nossa). 

O tamanho dos problemas e os valores altruístas e nobres

A partir da experiência de vida de Sócrates – assim como da experiência de Viktor Frankl no campo de concentração em Dachau – podemos concluir que nenhum problema é tão grande quando praticamos valores altruístas e nobres e quando seguimos com coerência e praticamos aquilo que, no caso particular de cada um, acreditamos, sendo até o sofrimento suportável quando estamos em sintonia com nosso propósito de vida.

Entrar em pânico por causa de crises não é uma boa opção, mas, sim, manter a tranquilidade e nosso interior com objetivos, crenças saudáveis e um sentido para a vida através do autoconhecimento. A barbárie pode estar nos entornos, na natureza humana ou em nós mesmos – mas a escolha, diante das circunstâncias que se apresentam, só depende de cada um.

Flávio Almeida Dias
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