Família

Como promover saúde mental nos pais e famílias durante a gestação?

Por que uma gestante precisaria de um psicólogo?

É estranho de se pensar que uma família que está grávida – esperando a chegada de um novo integrante – precisaria de acompanhamento psicológico! Ainda mais, pensar que a gestante, precisaria de um psicólogo!

Na nossa cultura, ir ao psicólogo ainda é sinônimo de estar louco ou profundamente adoecido, e é estranho pensar que uma mulher grávida — que espera-se e que esteja plena e feliz — estaria tão mal a ponto de precisar de um acompanhamento psicológico!

Pois é, a gestação e o pós-parto são períodos na vida da mulher que envolvem inúmeras alterações físicas, hormonais, psíquicas e de inserção social, as quais devem refletir diretamente em sua saúde mental. No entanto, ainda reside uma crença de que a gravidez e o pós-parto são os momentos mais felizes e maravilhosos na vida da mulher e da família.

É claro que para a maioria é um momento especial, sim, mas isso não quer dizer que também seja feliz. Muitas coisas mudam na vida da mulher e da família quando se tem a notícia de uma gravidez, o que pode comprometer a saúde mental dela e/ou de todos os envolvidos.

Para começar, pesquisas feitas na área da Psicologia Perinatal, indicam que mais da metade das gravidezes em nosso país não são planejadas (Schiavo, 2018). Se a notícia da gravidez já é ambivalente quando se está planejando, quando não se está, pode tornar ainda mais difícil a aceitação da mesma, pelos mais variados motivos.

Isso, por si só, já pode levar a gestante a começar a apresentar sintomas de ansiedade e depressão.

Além disso, essas pesquisas mostram os dados estatísticos sobre as gravidezes no Brasil, indicando que:

  • 35% das gestantes apresentam alta ansiedade;
  • 60% das gestantes apresentam stress em algum nível;
  • 25% das gestantes apresentam sintomas de depressão.

No pós-parto, esses índices diminuem, porém continuam significativos de acordo com o esperado, o que requer atenção:

  • 30% das mulheres apresentam alta ansiedade;
  • 20% das mulheres apresentam sintomas de depressão;
  • 49% das mulheres apresentam estresse em algum nível.

Os três períodos potenciais de crise na vida feminina

Na vida feminina, há três períodos potenciais de crise: a puberdade, a menopausa e o período perinatal (gestação e pós-parto). A literatura científica indica que este último é o período de maior prevalência de transtornos mentais na mulher, porém, a maioria não é diagnosticada e tratada adequadamente (Maldonado, 1997).

As mudanças provocadas pela vinda do bebê não se restringem apenas às variáveis psicológicas e bioquímicas, mas também envolvem fatores socioeconômicos, principalmente nas sociedades em que a mulher está inserida no mercado de trabalho, participando do orçamento familiar e cultivando interesses profissionais e sociais diversos.

Muitas mulheres têm que interromper ou adiar projetos de estudo e trabalho, o que pode não ser fácil para elas. Outras, ao sentirem as mudanças corporais, ao passarem mal com alguns sintomas físicos começam a odiar estarem grávidas! Ou até mesmo a perda da autonomia ao longo da gestação pode entristecer a mulher. São inúmeros os motivos que podem deixar a grávida estressada, ansiosa ou deprimida. O fato é que a gestação tem seus prós e contras, como qualquer coisa na vida. E as alterações psicológicas nessa fase, são mais comuns do que se imagina.

A família engravida junto com a mulher

O pai grávido também pode adoecer. Não há tantas pesquisas feitas com os homens (a maioria são com as mulheres), mas as poucas existentes mostram que aceitar uma gravidez e todos os desdobramentos e mudanças que ela traz, pode ser difícil para o pai também. Os homens podem ficar mais ansiosos, mais preocupados, por exemplo, pois sentem medo de perder o emprego, das responsabilidades que terão que assumir como pais, da nova dinâmica da família, de ser deixados de lado etc.

Se esse casal já tem outros filhos, eles também podem precisar de ajuda. Todos engravidam juntos. E a vida de todos sofrerá mudanças importantes. Por exemplo, quando ainda não se é pai, a partir da notícia da gravidez, passará a desenvolver essa nova identidade. Ou, quando já se tem um filho, deixará de ser pai de um para ser pai de dois. Deixará de ser filho único para ser irmão. Portanto, as mudanças afetam a todos. 

O homem, os irmãos e toda a família estão gestando o bebê também. Psiquicamente, toda a família engravida junto com a mulher! E todos eles podem ter seus dilemas e angústias. Portanto, todos podem e deveriam procurar ajuda do psicólogo perinatal. Esse profissional é especialista em alterações psicológicas oriundas da gravidez e pós-parto. 

Assim como a gestante faz o seu pré-natal com obstetra, e assim, é cuidada durante todo esse período, a fim de manter-se saudável e, consequentemente, o bebê também, ela e toda a família deveriam fazer o pré-natal psicológico! Este é um acompanhamento preventivo que fazemos da gestante (e da família também), com a intenção de ofertar cuidado e acolhimento, além de prevenir o adoecimento psicológico. 

Além disso, as alterações emocionais (como estresse, ansiedade e depressão), se não tratadas, podem também ocasionar prejuízos para o feto, como o nascimento prematuro, baixo peso, problemas de comportamento que podem se estender até a vida adulta.

Pré-natal psicológico: Quando fazer

  • Deve ser iniciado quando o casal já está pensando/planejando a gravidez e esse acompanhamento psicológico dura até o pós-parto (até o 3º mês ou mais). O ideal é que se inicie ainda no planejamento familiar, mas pode ser feito em qualquer trimestre da gestação.
  • Sempre que possível, deve ser feito pelo casal, porque existem atitudes do homem que podem facilitar ou dificultar o enfrentamento de situações estressoras pela mulher. Durante a gravidez, a mulher precisa da função protetora do homem. Além disso, se o homem não está bem, a mulher também não fica. Portanto, os dois precisam ser cuidados.
  • Nele são trabalhadas estratégias para o casal lidar com os eventos estressores típicos do período de gravidez e pós-parto. Isso evita adoecimento físico, inclusive, sendo fator preventivo contra hipertensão, abortos, cardiopatias, diabetes, risco de prematuridade, dentre outros.
  • Proporciona bem-estar físico, mental, emocional e espiritual do casal.
  • Ensinamento de técnicas para liberação no organismo de hormônios que produzem prazer e bem-estar, a fim de combater o estresse e adoecimento psíquico.
  • Atendimento personalizado ao casal.
  • Fornece informações e orientações acerca da gravidez, parto e puerpério, preparando, assim, o casal para lidar com todas as situações que geralmente surgem nesse período.
  • Trabalha o relacionamento do casal e o resgate da sexualidade.
  • Desenvolve no casal autonomia para o parto.
  • Atendimento para os avós — a fim de prepara-los para ser uma rede de apoio eficaz e protetiva da saúde mental dos recém-pais.

Gostou? Não perca mais tempo e agende já a sua consulta!

Referências

  1. Araujo, D.M.R., Pacheco, A.H.R.N., Pimenta, A.M., & Kac, J. (2008). Prevalência e fatores associados a sintomas de ansiedade em uma coorte de gestantes atendidas em um centro de saúde do município do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil. 8(3): 333-340. Acessado de 10.1590/S1519-38292008000300013
  2. Arrais, A.R., Araújo, T.C.C.F., & Schiavo, R.A. (2019). Depressão e ansiedade gestacionais relacionadas à depressão pós-parto e o papel preventivo do pré-natal psicológico.Revista Psicologia e Saúde, 11(2): 23-34. Acessado de https://pssa.ucdb.br/pssa/article/view/706/pdf
  3. Arrais, A.R., Araújo, T.C.C.F., & Schiavo, R.A. (2018). Fatores de risco e proteção associados à depressão pós-parto no pré-natal psicológico. Psicologia: Ciência e Profissão, 38(4): 711-729. Acessado de https://www.scielo.br/pdf/pcp/v38n4/19823703-pcp-38-04-0711.pdf
  4. Beretta, M.I.R., Zaneti, D.J., Fabbro, M.R.C., Freitas, M.A., Ruggiero, E.M.S., Dupas, G. (2008). Tristeza/Depressão na mulher: uma abordagem no período gestacional e/ou puerperal. Revista Eletrônica de Enfermagem, 10(4): 966978. Acessado de http://www.fen.ufg.br/revista/v10/n4/v10n4a09.htm
  5. Biaggio, A., & Natalício, L. (1979). Inventário de ansiedade traço-estado – IDATE. Rio de Janeiro: CEPA.
  6. Maldonado, Maria. Tereza. (2002). Psicologia da Gravidez: Parto e Puerpério. 16 edição. São Paulo: Saraiva.
  7. Pereira, P.K., & Lovisi, G.M. (2008). Prevalência da depressão gestacional e fatores associados. Revista Psiquiatria Clínica, 35(4): 144-153. Acessado de http://www.scielo.br/pdf/rpc/v35n4/04.pdf/
  8. Perosa, G. B., Canavez, I.C., Silveira, F.C.P., Padovani, F.H.P., & Peraçoli, J.C. (2009). Sintomas depressivos e ansiosos em mães de recém-nascidos com e sem malformações.
  9. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 31(9): 433-439. Acessado de https://www.scielo.br/pdf/rbgo/v31n9/a03v31n9.pdf
  10. Rodrigues, O.M.P.R., & Schiavo, R.A. (2011). Stress na gestação e no puerpério: uma correlação com a depressão pós-parto. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 33(9): 252-257. Acessado de https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010072032011000900006
  11. Schiavo, R.A., Rodrigues, O.M.P.R., & Perosa, G.B. (2018). Variáveis associadas à ansiedade gestacional em primigestas e multigestas. Trends in Psychology., 26(4): 2091-2104. Acessado de https://www.scielo.br/pdf/tpsy/v26n4/2358-1883-tpsy-26-042091.pdf
  12. Schiavo, R.A. Psicologia Perinatal e da Parentalidade (Recurso eletrônico). Agudos, SP: Materonline, 2020.
  13. Schiavo, R. A. & Castro, J. C. B. Alterações Emocionais em Gestantes em período de pandemia (COVID-19). 1ª edição. Agudos, SP: Instituto Materonline, 2020.
  14. Schiavo, Rafaela de Almeida. Saúde Mental na Gestação: ansiedade, stress e depressão (recurso eletrônico). Agudos, SP: Instituto Materonline, 2018.
Mariana Deodonno Miguel
Últimos posts por Mariana Deodonno Miguel (exibir todos)
Etiquetas

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar