Educação

Educar como substância

O ato de debruçar sobre diversos materiais que prometem elucidar o ofício do(a) profissional da educação nos dias atuais parece-me mais com uma tentativa de alcançar  os conceitos de qualidade do fenômeno da educação.

No sentido em que percebo um grande esforço por mensurar conceitos que soam bem aos ouvidos, mas que me parecem escorregar como uma gosma entre os dedos das mãos quando necessitam ser aplicados a uma circunstância real e objetiva.

Não desejo, com esse conceito, dar uma impressão de que penso ou desejo somente encontrar roteiros para cada situação da realidade em que necessitamos lidar com a educação. No entanto, diversos materiais que encontro chegam  a mencionar a necessidade de que profissionais da educação trabalhem questões  socioemocionais, protagonismo dos indivíduos e outros quesitos tão cheios de importância, mas, ao mesmo tempo, que deixam a desejar o famoso “como fazer” ou “o que seria, de fato, isso”.

Será que a necessidade do desenvolvimento do protagonismo se deu de maneira tão elevada que se faz dispensável o esclarecimento de:

  1. O que são essas questões?
  2. Como fazer para trabalhar ou desenvolver estas questões nos mais diversos contextos onde os profissionais da educação estão inseridos?
  3. Com quais impactos os profissionais da educação precisam lidar quando estes objetivos não são alcançados?

Diante de uma situação como essa, o texto “Max Scheler: educar é humanizar” nos apresenta uma perspectiva de reflexão onde educar significa humanizar. Nessa perspectiva, teremos a possibilidade de refletir o ato de educar como o desenvolvimento do indivíduo, não somente como um processo progressivo de apenas uma direção, mas como um processo de ir e vir, um vir a ser, avançar e retroceder e, dessa maneira, as questões mencionadas como socioemocionais, protagonismo serão tratadas no sentido de realizar a humanização a partir da educação.

O interesse em educação

Múltiplos setores e profissionais dos mais diversos saberes têm a educação como objeto de estudo. Este texto possui, como fundamento teórico, o entendimento obtido através do artigo que menciona um aspecto central da visão filosófica de Max Scheler sobre a educação.

A temática da educação foi inserida nos assuntos tratados por Max Scheler por conta de preocupações e divergências que ocorriam sobre essa temática nos anos 1920 e 1930. Das problemáticas mencionadas por Fritz K. Ringer em O declínio dos mandarins alemães (2000), Scheler lança uma perspectiva de que a educação é um processo de humanizar, e esta foi uma das concepções-chave de sua visão sobre a educação.

O indivíduo

Quem é o indivíduo? Humanizar significa desenvolver o espírito, isto é peculiar ao homem e é que o distingue de outros seres vivos (Schulz, 2017). O fenômeno de humanizar trata-se de um processo, um vir a ser, um ir e vir, um avançar e retroceder. Este processo está associado com a hierarquia de valorização que é a maneira de percepção que o indivíduo e a sociedade possuem e vivenciam dos valores em seu cotidiano.

A conceituação de valores será melhor desenvolvida no decorrer do texto mas, em um primeiro momento, faz-se necessário entender que, para Scheler, um valor que necessita ser resgatado é a constituição de modelos de indivíduos inseridos na educação que inspirem os outros. 

Scheler possuía uma relação com um contexto muito crítico durante um período de sua vida. Crítico no sentido de que vivenciou o antes, o durante e o depois da Primeira Guerra Mundial. Scheler buscou compreender o contexto que chegou a denominar de decadência em razão da inversão de valores e, durante uma crítica sobre a educação na Alemanha, Scheler zomba da “profissionalização unilateral”, achava que o ensino superior alemão já não produzia indivíduos de inteligência que deveriam influenciar a vida da nação e que a universidade se degenerava numa escola profissionalizante.

A civilização ocidental necessitava de uma nova atitude pois, com o passar do tempo, ela se afastou do que considerava ser mais elevado para o homem e para a humanidade, voltando, assim, seus olhares para um saber mais técnico, prático, utilitário e à ciência positivista.

Neste contexto, Ringer (2000) afirma que as universidades estariam cumprido apenas uma fração de suas funções, que estariam negligenciando a obrigação de tornar o conhecimento e tradições culturais acessíveis para todas as classes da população e que estariam constituindo indivíduos muito mais especialistas e técnicos do que seres humanos plenamente desenvolvidos, e ainda que os professores não estariam sendo modelos pessoais para seus alunos.

Dessa forma, Scheler articulava sua visão de que a universidade popular não deveria possuir, como objetivo, uma mera especialização técnica, mas que deveria também visar uma formação humanista. 

O saber

Scheler possuía a visão de que seria necessário recuperar a dimensão do saber que foi esquecido. Nesse sentido, Scheler classifica o saber em três espécies:

  1. O saber de dominação ou realização;
  2. O saber da essência ou cultural;
  3. O saber da salvação (Schulz, 2017).

O filósofo não orienta apenas sobre as circunstâncias do declínio cultural, mas também possíveis saídas para sua recuperação. No entanto, para entender as possíveis saídas, necessitamos entender os conceitos das espécies do saber. 

A primeira espécie de saber é o saber de dominação ou de realização. Este é o saber técnico e possui, obviamente, uma relevância para a sociedade, mas que, segundo Scheler, não pode ser aquele que ocupa um lugar exclusivo, visto que este saber, quando recolhe a ênfase social para si, ofusca a cultura e o indivíduo.

A segunda espécie do saber é o de essência. Este é o saber cultural é a forma como, para Scheler, é possível reconstruir o caminho que defende não uma formação meramente técnica ou utilitarista, mas a humanização e a formação do ser.

A terceira espécie do saber é o metafísico, este é o nível hierárquico mais elevado e que, para Scheler, significa tornar-se microcosmos. É  fundamental adquirir a clareza de que o contato com estes níveis do saber se dá em forma de processo evolutivo: avançando e retrocedendo, eliminando a ideia de um processo contínuo sem interrupções.

Para Scheler, a resultante possível é de que valores possam ser resgatados como, por exemplo, o surgimento de modelos que representem esse saber, para que a sociedade possa, nestes modelos, buscar sua inspiração. 

A preocupação sobre o saber

Durante a revisão deste texto, um leitor com o qual compartilho minha amizade me descreveu a sensação de que Scheler parecia desvalorizar a educação popular ou técnica. Na verdade, não é bem isso.

Para abordar este ponto, necessitamos compreender que a formação de Scheler é de herança humanista e que, em sua época os diálogos eram, por um lado, de caráter humanista e, por outro, em uma ênfase nas características práticas e técnicas.

A visão de Scheler era a de que era necessário dar ênfase no que denominou de destinação individual e que essa destinação se aplicava para nações, para entidades culturais e finalmente, para cada indivíduo em particular.

Quando discutimos a visão de Scheler sobre tratar a educação como um método, é necessário destacar que o filósofo argumenta sobre o que necessita ser conservado sobre os métodos da antiguidade e o que precisa ser inovado.

Um desses destaques é a visão de Scheler de que não bastaria a educação ser dicotômica, no sentido de ser prática de um lado e teórica de outro, que não bastaria uma elite culta desbravar os horizontes da história se o restante da população não viesse a receber formação culta e humanista.

Para Scheler, a política educacional deveria ser conduzida unindo os três saberes: da realização, das  essências e da metafísica com a teoria e prática (Schulz, 2017). 

Educar é tornar-se indivíduo

Por entender que é necessário tornar-se indivíduo, a educação deveria se desenvolver  como um processo ou um projeto que não decorre de uma evolução biológica, mas sim da humanização do ser. O indivíduo remete ao entendimento de abertura ao mundo das essências, possui uma potência de se relacionar e tornar-se livre da sujeição aos instintos e, por isso, eleva-se ao particular do ser e, por conta dessa reflexão, Scheler raciocina que a educação não está em vista somente de uma especialização, de uma aptidão voltada para o domínio técnico mas sim para a humanização do indivíduo.

Neste processo de humanização, a educação volta-se para o agente principal do processo: o indivíduo. Dessa  forma, entende-se que a educação é um fazer-se a partir de si mesmo (Schulz, 2017). 

Nesse contexto, dificilmente poderíamos concluir o texto sem observar que o indivíduo anteriormente mencionado e inserido no contexto educacional é o indivíduo em contato com outro que o educa. Para este que educa, Scheler atribui um lugar importante no sentido de que o educador não é um simples objeto de imitação, mas sim aquele que possui a capacidade de ser revelador, de ser guia, de ser capaz de levar a entender o desejo do outro no caminho da humanização.

Nesse sentido, a tarefa do educador seria de despertar, de libertar e não de se submeter ao modelo do educando. Para exemplificar o contexto anteriormente mencionado, utilizaremos um trecho de Pereira APUD Schulz onde lembra: “[…] enquanto ele quiser o que querem seus pais, seus educadores ou quaisquer membros de seu ambiente, sem estar ainda em condições de reconhecer, no querer de um conteúdo, a vontade de um outro, quer dizer de uma pessoa diferente dele mesmo” (2000, p. 141).

Scheler entende que, neste sentido, ainda não se atingiu a maior idade, visto que o menor não consegue distinguir seu querer de outrem. Scheler nos faz refletir sobre a dupla jornada do professor que seria sua função de despertar valores e de seu próprio chefe no sentido de que possui a consciência de sua função.

Luan Felipe de Sousa Dantas 

Referências:

  1. PEREIRA, Rosane Maria Batista. O sistema ético-filosófico dos valores de Max Scheler.  Porto Alegre: EST Edições, 2000. 
  2. SCHULZ, A. Max Scheler: educar é humanizar. Revista Espaço Pedagógico, v. 24, n. 3,  p. 552-564, 19 dez. 2017.
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