Saúde

Novembro Azul: A real importância da campanha e a quebra de tabus 

O mês de novembro chegou e com ele a importante campanha Novembro Azul. Esta campanha surgiu no Brasil em 2011 e tem o objetivo de conscientizar os homens sobre o cuidado com a saúde e, principalmente, quebrar alguns tabus e preconceitos sobre o diagnóstico precoce do câncer de próstata. O cuidado, claro, deve ser feito o ano inteiro, mas este mês e esta campanha surgem como um grande alerta para toda a população masculina.

A cada 38 minutos um homem morre no Brasil devido ao câncer de próstata, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer, o INCA. Porém, além da alta mortalidade pela doença, um dos fatores que mais preocupam é a cultura de negligência, preconceito e tabu pelos homens nos cuidados com sua saúde.

Por que este tema é tão importante?

O câncer de próstata é um dos cânceres mais comuns no mundo e a segunda maior causa de mortes na população masculina no Brasil. A estimativa é que, a cada 100 mil homens, mais de 66 mil desenvolvem a doença. Só em 2018/2019, foram mais de 68 mil casos, o que significa 42 homens morrendo por dia por conta da doença e aproximadamente 3 milhões convivendo com ela. De acordo com estudos, as principais vítimas são homens acima de 50 anos, mas a doença se desenvolve muito antes, por isso é tão importante falarmos da prevenção e do tratamento precoce.

Vale lembrar que mulheres transsexuais, travestis, pessoas não binárias e outras pessoas que possuem próstata também devem realizar acompanhamento preventivo. Além disso, a campanha Novembro Azul pode ser um alerta para outros tipos de câncer que podem atingir a população masculina e que dependem de um diagnóstico precoce, como câncer de pênis e o câncer do reto. Independente da idade, o autocuidado, a realização periódica de exames e a adoção de hábitos saudáveis devem ser adotados em todas as idades.

Quais são os principais fatores de risco, sintomas e formas de prevenção?

Sedentarismo, má alimentação, obesidade são alguns dos fatores de risco do câncer de próstata. Histórico genético na família, como pessoas de primeiro grau que desenvolveram a doença, também é um importante fator. O câncer de próstata pode não apresentar sintomas no início. Quando aparecem, os mais comuns são bexiga desregulada, com dificuldade ou excesso ao urinar. Infelizmente, os sinais aparecem já com cerca de 95% dos tumores em fase avançada, apresentando insuficiência renal, dores nos ossos e forte infecção.

A realização de exames com frequência e a adoção de hábitos saudáveis são os principais pontos de prevenção. A recomendação é que homens acima de 40 anos já realizem os exames, especialmente se tiverem casos da doença na família. Os exames devem ser feitos anualmente, para monitoração da região. Realizar check-ups anuais, controle de colesterol, diabetes e pressão, praticar exercícios físicos regularmente, evitar cigarro e abuso de álcool e manter uma alimentação equilibrada também são importantes recomendações.

Além da saúde física, é extremamente importante cuidar da saúde mental. Diversos fatores podem causar desequilíbrios emocionais, como as preocupações no trabalho, família, dinheiro, futuro e todos estes fatores devem ser observados.

Por que estamos falando em tabus e preconceitos?

Uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Urologia mostrou que 51% dos homens nunca consultaram um urologista. Por conta do preconceito que envolve o exame de toque retal, que por sinal é indolor, dura em média 10 segundos e é feito por um especialista, muitos homens são diagnosticados com a doença já em estados avançados, o que causa muitos óbitos. Se identificados em fase inicial, o câncer de próstata tem altos índices de cura.

De acordo com dados de 2015 da Pesquisa Nacional do PNAD/IBGE, os homens vivem, em média, sete anos e meio a menos do que as mulheres. A expectativa de vida dos homens é de 71%, contra 79 anos para as mulheres. A pesquisa ainda aponta que 70% dos homens brasileiros procuram consultas médicas por influência dos filhos ou cônjuge.

Os principais motivos indicados pelos homens para a negligência com a própria saúde é o preconceito e a falta de tempo. Apenas 32% dos homens, entre 40 e 70 anos, realizaram o exame de toque retal. Além disso, a saúde dos homens é bastante influenciada pelo seu comportamento, como tabagismo, sedentarismo, má alimentação, prevalecendo a ideia de que nunca será atingido por doenças, reforça o urologista Miguel Srougi, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Como quebrar o ciclo?

Culturalmente e historicamente, a figura masculina é permeada pela força, virilidade e ausência de fraquezas e isso, sem dúvida, gera muita pressão e preconceitos para os homens. Existe a ideia de que o homem não pode demonstrar seus sentimentos, suas emoções, deve ser forte e inabalável o tempo inteiro. Com isso, é comum que os homens, em sua maioria, não olhem para si, não se cuidem e não desenvolvam rotinas e práticas de autocuidado, sejam estas físicas ou emocionais. Fomos acostumados e criados a ouvir frases como “homem não chora”, “não seja uma menininha”, “se apanhar, tem que bater” e outras tantas.

E preciso te contar uma coisa: não precisa ser assim! Os tempos mudaram! Está mais do que na hora de entendermos que cuidar da própria saúde, olhar para si mesmo, reconhecer suas forças e também suas limitações e pedir ajuda, se precisar, não tem nada de errado e não afeta em nada minha masculinidade. Muito pelo contrário! Buscar autoconhecimento, ter rotinas saudáveis de saúde, fazer exames periodicamente, só me trará benefícios. Buscar ajuda profissional, seja médica ou psicológica, é libertador e em nada afeta minha masculinidade, assim como realizar exames de câncer de próstata não afetará quem sou, nem minha sexualidade, orientação sexual ou identidade de gênero, seja a sua qual for.

A psicologia tem um papel fundamental na quebra destes ciclos e na desmistificação de algumas crenças que podem limitar os homens no autocuidado, na busca de ajuda seja por medo, vergonha ou pressão do meio em que vive. A psicoterapia pode ampliar os horizontes e trazer à tona muitas questões como a possibilidade de expor as fragilidades, a possibilidade de sentir medo, chorar, ficar triste e entrar em contato com seus sentimentos e emoções.

A maioria das doenças que afetam os homens estão associadas aos seus hábitos e escolhas, assim como a negligência com a própria saúde. Importante lembrar que prevenção não pode ser apenas focada no biológico, afinal, saúde não é determinada apenas pela ausência de doença diagnosticada, mas pelo estado de bem-estar integral do ser humano, produzido a partir da interação entre os eixos biológico, psicológico e social, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Espero que este texto contribua para reflexões e possíveis mudanças de comportamento. Compartilhe com amigos, familiares e todos que acredite que possam se beneficiar desta leitura. Que seja um incentivo ao autocuidado e à sua qualidade de vida! Boa sorte e até a próxima.

Referências

  1. https://www.inca.gov.br/
  2. https://site.cfp.org.br/novembro-azul-atencao-saude-do-homem-deve-ser-diaria/
Sidney Possato
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