Relacionamento

Autocompaixão e relacionamentos íntimos 

A autocompaixão

Segundo Neff (2017), a autocompaixão pode ser definida como um processo de abertura ao sofrimento em relação a si próprio, ver os dissabores como uma condição da experiência humana. Assim sendo, ela possibilita ao ser humano reconhecer suas imperfeições, seus erros e sofrimentos como méritos de ter compaixão. Deste modo, ela propicia compreender que mesmo que as coisas não estejam bem, isso não quer dizer que elas deram errado.

A autocompaixão é facultada por três componentes, tais como:

  • Autobondade (abertura para ser gentil com suas próprias falhas),
  • Humanidade compartilhada (significa que as experiências fazem parte da condição humana, sejam elas difíceis ou não, o que evita a sensação de isolamento),
  • Mindfulness (aceitação equilibrada dos sentimentos negativos, atenção plena, o que oportuniza a não exagerar dadas emoções e nem identificá-las com as mesmas). 

No que se refere ao tema aqui abordado, falar em relacionamentos românticos é algo atrativo, pois nunca houve tantos especialistas em relacionamentos, com receitas, recomendações infinitas de como relacionar-se. Não é difícil ter acesso a esses conteúdos, são rádios, redes sociais, horóscopos que sinalizam o que devemos ou não fazer. Porém, ao mesmo tempo que os indivíduos têm esse desejo de relacionar-se, nossa sociedade moderna vive um dilema angustiante entre estreitar os laços humanos e, ao mesmo tempo, mantê-los soltos, tendo em vista que eles podem acarretar incerteza, insegurança, inquietudes e responsabilidades, e com o advento da liberdade e individualização tornou-se quase que insuportável viver tais frustrações.

Todavia, segundo Harris (2011, p. 4) “felicidade não é apenas se sentir bem. Se assim fosse, os viciados em drogas seriam os seres mais felizes do planeta. Na verdade, sentir-se bem pode se tomar uma busca muito infeliz”.

Ser gentil consigo é um importante passo para se relacionar com o parceiro amoroso

Acredita-se que a autocompaixão tem um papel importante nos vínculos afetivos. Uma pesquisa desenvolvida por Yarnell e Neff em 2013 revelou que os indivíduos com maior autocompaixão têm maiores chances de resolver conflitos em seus relacionamentos românticos, a buscar de modo equilibrado as necessidades de ambos, serem mais autênticos na resolução de conflito e terem efeitos positivos tanto na esfera individual quanto interpessoal.

Também ao reconhecermos que a experiência faz parte da humanidade compartilhada, a autocompaixão ajuda a dar acesso a sentimentos de conexão com os indivíduos em momentos difíceis e, assim, dar maior suporte emocional em momentos conflitantes com os parceiros românticos, bem como evitar posições defensivas.

Além disso, a autocompaixão tem se mostrado um componente importante no bom funcionamento psicológico, pessoas que apresentam maiores escores de autocompaixão tendem a ter menores níveis de ansiedade, depressão, menos reatividade, ruminação, raiva, melhor aceitação ao receber feedback pessoal e maior sentimentos de conexão com os próximos em momentos difíceis. 

Será possível manter conexões humanas sólidas sem passar por frustrações?

Aristóteles (1252b, p.15) filósofo da antiga Grécia enfatizou que o “homem é um animal social”, com essa máxima pode-se perceber a suma importância de manter as relações sociais, que o homem em sua natureza carece e tem o instinto de manter os vínculos. Maslow, líder do movimento humanista do século XX, segue nessa mesma linha afirmando que sem os sentimentos de afeto, amor e pertencimento o homem não consegue desenvolver seu pleno potencial.

Tendo isto em vista, nota-se a extrema importância de desenvolver, de modo equilibrado, o ato de relacionar-se, porém, no mundo moderno o que se observa é uma fragilidade, bem como uma dificuldade nesse âmbito, sobretudo, no que diz respeito aos relacionamentos íntimos. Os indivíduos da sociedade denominada liquida, segundo Bauman, que enfrentam a angústia entre ser livres do ato de relacionar e ao mesmo tempo impelidos a estreitar esses laços humanos, guiados pelo princípio do prazer, havidos pelas incertezas, insegurança, tensões que os relacionamentos podem proporcionar a vivência de momentos difíceis no âmbito amoroso, tudo isso é motivo para descartes do parceiro, pois há uma inabilidade, enquanto seres advindos da cultura do consumismo, de experienciar o desconforto relacional.  

Como manter os laços sólidos em uma modernidade abarcada pelas constantes incertezas?

A autocompaixão pode ser um viés para desenvolver habilidades para os relacionamentos românticos, pois a autocompaixão fomenta o cuidado consigo, estimula liberação de ocitocina, hormônio de fundamental importância nos relacionamentos interpessoais, através do componente autobondade. Tal habilidade, pode ser um excelente recurso em momentos em que os indivíduos se sentem inseguros, críticos, culpando-se por alguma situação, falhas e inadequações experimentadas em seus relacionamentos interpessoais. 

Além disso, de quando em quando é compartilhado sentimentos de isolamento, que certas situações, como brigas, ciúmes, raiva, insegurança em relação ao seu relacionamento acontece unicamente consigo, que momentos de desequilíbrio e desconforto é pertencente somente a si, desencadeando a sensação de desconexão do resto do mundo. Todavia, a autocompaixão desencadeia nos sujeitos o sentimento de interconectividade, anula a ilusão de que são partículas separadas do resto do universo, de forma a entender que são parte de um todo, que sentimentos, pensamentos e momentos difíceis fazem parte da humanidade compartilhada. 

Outrossim, sabe-se que apesar de haver semelhanças genéticas, sociais, culturais nos seres humanos, estes são seres únicos que carregam suas histórias de vida particulares, o que faz nascer a pluralidade das diferenças. Essa condição, na maioria das vezes, ao se relacionar faculta aos sujeitos momentos estressores, sobretudo quando se tem filhos, pois cada um recebeu uma educação diferente, tem opiniões diferentes e isso pode ser um fator para grandes e notáveis desentendimentos. No entanto, o mindfulness, um dos componentes da autocompaixão, faz com que as pessoas experimentem as situações, circunstâncias do modo que ela se apresenta, sem exagerar e sem suprir atenção plena no objeto presente, a evitar pensamentos distorcidos e sentimentos confusos. 

Como inspirar uma atitude positiva no fervor das emoções?

Sabe-se que vivenciar relacionamentos amorosos representam desafios, tendo em vista que são dois indivíduos que têm histórias de vida diferentes, receberam educações distintas e que na hora da união isso pode gerar conflitos, como mencionado anteriormente. É comum quando surgem conflitos termos uma postura agressiva, com xingamentos, hostilidade e atitude de culpar o outro. Entretendo, ao ter uma postura compassiva, gentil e compreensiva quando um conflito surge, “o outro parceiro pode assumir uma postura compassiva semelhante” (NEFF; BERETVAS, 2012, p. 15). Assim, a autocompaixão tende a inspirar sentimentos positivos, também, tranquilizar e amenizar o fervor de nossos sentimentos. 

Ademais, ao reconhecer a natureza imperfeita e que todos nós cometemos muitos erros, esse comportamento resulta em tornar a pessoa ser mais tolerante com os erros da pessoa amada, favorecendo maior aceitação e interconexão. A autocompaixão desencadeia bons níveis de autonomia, proporciona menos dependência para atender as demandas de amor e aceitação incondicionais e tende a despertar mais recursos emocionais para dar a pessoa amada. O estudo de Neff e Beretvas (2012) evidenciou que autocompaixão correlacionou negativa e significativamente ao controle, desapego, agressão verbal e que os parceiros tinham menos percepções negativas de seus próprios comportamentos e atitudes. 

Tendo revelado isso, é percebido que a autocompaixão é componente de grande relevância nos relacionamentos interpessoais, pois além de conceder maior conexão entre os parceiros corrobora para uma interação saudável, bem-estar psicológico e evita relações abusivas.

Referências

  1. NEFF, KRISTIN. Autocompaixão: Pare de se torturar e deixe a insegurança para trás. Tradução de Beatriz Marcante Flores–Teresópolis, RJ: Lúcida Letra, 2017.
  2. HARRIS, R. Liberte-se: Evitando as armadilhas da procura da felicidade. 2011.
  3. YARNELL, Lisa M.; NEFF, Kristin D. Self-compassion, interpersonal conflict resolutions, and well-being. Self and Identity, v. 12, n. 2, p. 146-159, 2013.
  4. ARISTÓTELES, Política. Tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1985.
  5. BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Editora Schwarcz-Companhia das Letras, 2004.
  6. NEFF, Kristin D.; BERETVAS, S. Natasha. The role of self-compassion in romantic relationships. Self and Identity, v. 12, n. 1, p. 78-98, 2012.
Jéssica da Silva Guimarães
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