Desenvolvimento pessoal

Quando o luto se transforma em luto patológico?

Contextualizando o luto

Para melhor compreensão do luto e sua patologização, é importante pensar sobre a concepção da morte. Nesse sentido, a morte é uma construção social resultado de um longo processo histórico, apontado por diferentes sistemas econômicos, com rituais e costumes que envolvem questões existenciais, subjetivas e espirituais.

A morte ocorria no decorrer dos séculos em casa com os familiares ao redor. No entanto, os desafios perante as doenças geraram técnicas de prevenção e de cura, portanto, a morte passou a ser vivenciada pelos familiares em hospitais (Hayasida et al, 2014). 

De acordo (Airès, 2012), historicamente a elaboração do luto ocidental passou por profundas modificações no período da idade média, sendo permitido ao enlutado toda forma de expressão de dor, sem limite de tempo ou apropriação.

Com isso, manifestações de choro, desmaio, jejum eram comuns e até mesmo valorizadas, com forte apoio social. Para o autor, a partir de meados do século XIX a sociedade ocidental modificou a forma de encarar a morte. O que antes era aceito como um processo natural da vida, sem desespero, passou a ser compreendida como uma falha humana, um acontecimento técnico, em que se decide parar o tratamento por falta de recursos ou conhecimento.

Ou seja, a morte passou a não ser mais aceita como um processo natural. Sendo assim, a elaboração do luto também sofreu transformações, limitando expressões de sentimentos. E tais características são de fundamental importância para elaboração completa do luto.

Definição de luto

O luto é definido pelo viés psicanalítico como trabalho (Mijolla, A.2005). A palavra trabalho por sua vez é derivada do latim “tripalium”. Compreendida como instrumento de tortura. É a partir do renascimento que a palavra trabalho passa a ser entendida como realização humana, como aquilo que está diretamente ligado à identidade da pessoa.

Pode-se perceber duas definições distintas da palavra trabalho, a primeira com uma conotação negativa, tais como: uma tortura, uma punição, um incomodo ou um fardo. Na segunda, percebe-se a realização compreendida como crescimento pessoal, marcando a sua existência no mundo que está ligado a sua identidade (Ribeiro & Léda, 2004).

Entendendo que a perda faz parte da existência, que a morte faz parte da vida e do desenvolvimento humano, o luto então é o processo desse movimento da vida. E ao juntar as duas concepções da palavra trabalho pode se perceber que existe uma ressignificação da vida após uma perda. Ou seja, após um período de dor, após um árduo processo a fim da realização completa do luto, um novo viver sem o objeto perdido passa a ser aceito e uma nova identidade é adquirida por meio dessa realização. 

Concordando, os autores Cavalcanti, Samczuk &Bonfim (2013) ressaltam que o luto é a perda de uma ligação significativa, é um episódio mental próprio do desenvolvimento humano. A caracterização do luto vai além das respostas à perda de um ente querido, o luto também corresponde a conceitos como: pátria, liberdade e ideal, a pessoa enlutada é tomada por lembranças referente ao que se perdeu (Mijolla, A.2005).

A experiência do luto não só se caracteriza pela condição de uma perda por morte. O luto pode ser compreendido por “perdas”, a perda de um relacionamento, de um emprego, da saúde, mudança de cidade, perda da infância ou mesmo a perda do poder ir e vir. Sendo assim, questionamentos referentes ao luto são importantes. Exemplificando: quando o luto passa a ser patológico? 

O funcionamento do luto e a patologização

Segundo Kübler-Ross (1969) é necessário entender que existem reações emocionais próprias do luto, essas reações funcionam como um mecanismo de defesa e são compreendidas por estágios do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

No estágio da negação o indivíduo não aceita a informação, assim como a própria palavra sugere. Essa defesa pode ser temporária ou persistente. No estágio da raiva emergem sentimentos, nomeadamente como a ira, a revolta e o ressentimento. No estágio da barganha é comum o enlutado negociar com a dor, pensar em possibilidades, e assim passa a ter dias bons e ruins. No estágio da depressão o indivíduo experiencia sentimentos de apatia e tristeza prolongada. Não tendo vontade de fazer atividades que antes lhe davam prazer. Por fim o estágio da aceitação, nesta fase o enlutado entra em paz com a situação da perda, ressignificando a própria vida. 

Portanto, os estágios do luto são compreendidos como reações saudáveis perante à perda e devem ser vivenciadas até o fim, a falta do processo natural do luto pode indicar uma psicopatologia ou um luto complicado, em que o enlutado pode se fixar em um dos estágio, como por exemplo a negação ou a depressão (Ramos,2016). 

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, 2014), o luto complicado se enquadra no episódio depressivo maior (EDM), sendo que esse pode ser causado por diversos fatores, incluindo “perdas”, assim como visto acima.

Para os autores o que difere no luto são os sentimentos de vazio referente à perda e a intensidade. Sendo que a intensidade pode diminuir durante dias ou semanas e são conhecidas como ondas, as “dores do luto”. Já no EDM existe um humor persistente e incapacitante que dificulta a antecipação da felicidade ou prazer, esse quadro é caracterizado pela baixa autoestima.

Já no luto, os pensamentos estão ligados ao que se perdeu sem os sentimentos de menos valia. Outro fator importante considerado no manual são os fatores pessoais e culturais. Portanto, o luto se torna patológico quando se enquadra nos critérios de diagnóstico para EDM.

O que fazer ao identificar um luto não elabora

Pensar sobre a morte pode gerar uma auto reflexão. São comuns pensamentos sobre a própria finitude ou sobre a finitude de entes queridos, e tal característica pode gerar angústia, que por sua vez pode conduzir a uma natural evitação de pensamentos sobre o tema.

No entanto, é importante salientar que o fato de se evitar falar sobre os sentimentos e pensamentos gerados pelo luto, não fortalece o enlutado, ao contrário, essa atitude dificulta o processamento de forma saudável. 

Ao identificar um luto patológico, faz-se necessário o acompanhamento psicológico. O processo psicoterápico tem como objetivo fortalecer a expressão dos sentimentos, validar e encorajar o uso de crenças e dos ritos perante a morte, facilitar a comunicação e reduzir sinais patológicos futuros, bem como promover uma melhor qualidade de vida para o enlutado (Schmidt; Gabarra & Gonçalves, 2011). 

Ézia Cristina Cavalcante

Mestre e Psicóloga Clínica 

 

Referências Bibliográficas:

ARIÈS, Phillipe. História da morte no Ocidente: da Idade Média aos nossos dias. Ed. Especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

Cavalcanti, A. K. S; Samczuk, M. L; Bonfim, T., E. O conceito psicanalítico do luto: uma perspectiva a partir de Freud e Klein. Psicol inf.ca vol.17 no.17 São Paulo dez. 2013.

Ribeiro, C.V. dos S; Léda, D. B. O significado do trabalho em tempos de reestruturação produtiva. Estud. pesqui. psicol. v.4 n.2 Rio de Janeiro dez. 2004

Hayasida, N. M. de A et al. Morte e luto: competências dos profissionais. Revista Brasileira De Terapias Cognitivas. pp.112-121. Manaus. 2014. 

Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. 

Mijolla, A. Dicionário Internacional de Psicanálise. Imago. 2005.

Kübler-Ross E. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes; 1969. 

Schmidt, B; Gabarra, L. M & Gonçalves, J., R. Intervenção psicológica em terminalidade e morte: relato de experiência. rev paidéia, Vol. 21, No. 50, 423-430. set.-dez. 2011. 

Ramos, V. A. B. O processo de luto. Rev. O Portal dos Psicólogos. 2016.

Ézia Cristina Cavalcante
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