Desenvolvimento pessoal

O processo de luto na separação amorosa

É comum a romantização do amor e dos relacionamentos afetivos na sociedade, é possível percebê-la em filmes, novelas, músicas e na expressão artística. Quando se trata do término de relacionamento, geralmente, em algumas músicas a dor é tratada de forma apelativa e em algumas vezes até mesmo de forma jocosa. Em outras canções é possível sentir um alento e estabelecer significado para o sofrimento. 

Embora a dor de amor seja matéria-prima para a cultura, raramente as perguntas que nunca são facilmente respondidas são sobre: como curar a dor da perda? Como superar o fim? Quando isso vai passar? Posso sobreviver sem a outra pessoa? O que devo fazer para melhorar? Como faço para esquecer?

Para estas questões não há respostas prontas, são inúmeros os sentimentos e emoções que eclodem na psique de quem está sofrendo, um exemplo, são os sentimentos ambivalentes do tipo “amo e odeio”, “quero e não quero”, “sinto carinho e raiva”. Sentimentos estes que são difíceis de decifrar, o que torna o término ainda mais confuso.

A pessoa atingida pelo fim do relacionamento entra em um estado emocional semelhante de quem está perdido; há uma baixa autoestima, pois coloca-se o outro em um pedestal distante daquilo que ele é realmente, insiste em dedicar-se ao outro, o que leva a falidas tentativas e que apenas favorecem a redução do seu próprio ser. 

A necessidade de amparo

Sabe-se que a dor de amor existe desde que o mundo é mundo, entretanto, ela ainda é pouco permitida pela sociedade. Também não é percebida como um processo de luto. Muitas vezes para o indivíduo que está em estado de sofrimento, não o dão o tempo de sofrer, como se este tivesse a obrigação de ser feliz a qualquer custo. E esse custo, frequentemente, é um preço alto a se pagar.

Não é de se estranhar que a tristeza seja a emoção mais indesejada de sentir-se atualmente, é difícil aceitar que se está triste, contudo, ela é necessária, como todas as outras emoções. É nessa ânsia de esconder ou conter a dor que ela é negligenciada, negada e massacrada em comportamentos que podemos chamar de falsa felicidade. 

De um modo geral, o acolhimento e o apoio às pessoas que estão passando por este momento é crucial para o reestabelecimento do equilíbrio e a retomada da rotina, que muitas vezes é prejudicada pelo novo cenário de vida.

A dor da perda

A dor da perda amorosa é tão desmedida que para alguns estudiosos ela é reconhecida como morte em vida.

Essa morte é proveniente de um relacionamento que não existe mais, dos sentimentos feridos e ,acima de tudo, da pessoa que não é mais a mesma, pois aquela identidade desenvolvida junto ao parceiro romântico deixa de existir. Dessa forma, é preciso desenvolver uma nova identidade, separada daquela pessoa, daquele ideal de eu, para desenvolver uma identidade real, mais adequada ao momento atual.

Pode se imaginar que a dor do término está atrelada ao tempo que perdurou o relacionamento, porém, isso não passa de dados quantitativos. O que se observa é que quanto maior a intensidade do elo, maior é a dor da ruptura. Os hábitos de vida estabelecidos com o outro dão vazão a um vazio que clama por preenchimento. 

Para algumas pessoas o término pode ser tomado como uma experiência para reconstrução de um novo ser, ou seja, um processo de aprendizado e de autoconhecimento. Já para outras, pode ser um processo extremamente dolorido e de inaceitação da atual condição. Ambos são difíceis de atravessar, contudo, deve-se manter atenção para que esta dor não prejudique as outras dimensões da vida, como a profissional, a financeira e a social. 

O pai da Psicanálise, Freud, em seu livro Luto e Melancolia (1917), diz que é importante no processo de luto “deixar o outro ir e deixar-se perder”. Deixar-se perder no sentido de uma nova identificação, não aquela velha identidade estabelecida na relação com o outro. 

Compreender que ao longo da vida perdemos muitas coisas que amamos nos ajuda a entender a condição humana, que é composta por perder, abandonar e desistir. Lamentar é um processo de adaptação às perdas da vida.

E essas perdas não significam apenas a morte das pessoas que amamos, mas o fim de uma amizade, o fim de um casamento, a perda do que fomos e do que um dia esperávamos ser. Consiste em um processo natural, as coisas que amamos se findarem, mas o que pode confortar é de que existe um fim também para a lamentação.

O processo psicoterapêutico como aliado no enfrentamento da dor

O desenvolvimento do luto pode ser vivenciado na psicoterapia junto a um psicólogo, neste momento de dor é necessário expressar as emoções, colocar para fora o que está guardado.

Como dizia Shakespeare: “Dê palavras ao sofrimento; a dor da perda não fala, murmura dentro do coração dolorido e o faz partir-se”.

Neste sentido, é importante que a pessoa enlutada permita-se sentir a dor e a manter uma postura aberta diante do novo.

O processo de luto é individual e pessoal, dessa forma, cada pessoa sente de forma singular, e o processo psicoterapêutico pode ser um aliado para enfrentar esta fase. Para realizar psicoterapia não há contraindicações, pois ela ajudará a reestabelecer o equilíbrio emocional, compreensão do processo de transição da vida, autoconhecimento e apoio por parte do(a) psicoterapeuta. 

Vale ressaltar que as perdas muitas vezes são possibilidades para novas condições de ganhos, que não seriam possíveis se o indivíduo não as vivenciasse. Pois, há conquistas que são, inevitavelmente, precedidas de perdas.

O ser enlutado pela perda do outro pode sentir a falsa sensação de que aquele relacionamento ou que aquela pessoa era perfeita e que nunca mais poderá vivenciar algo desta magnitude. Isso não passa de uma ilusão criada pela mente para justificar a dor. Ora, se a relação fosse tão excepcional, ela não teria acabado.

Neste sentido, a psicoterapia pode facilitar a possibilidade de elaboração e recuperação do enlutado, na medida em que favorece a individualidade própria do sujeito e a retomada do significado da vida. O psicoterapeuta escutará e prestará apoio. Para que este processo possa ser menos doloroso possível e capaz de prevenir possíveis psicopatologias futuras. 

Janayna Longhi

Psicóloga

CRP 12/19661

 

Referências Bibliográficas:

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917). In: A história do movimento psicanalítico: artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 249-263. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14).

VIORST, Judith. Perdas necessárias. [Tradução Aulyde Soares Rodrigues]. 4 ed. São Paulo: Editora Melhoramentos. 2005.

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