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Katla: O que uma série e um vulcão podem nos ensinar sobre dor e luto?

A série Katla estreou em 2021 na plataforma de streaming da Netflix e narra estranhos acontecimentos que se sucederam na aldeia de Vík após um ano de uma erupção vulcânica: algumas pessoas apareceram cobertas de cinzas.

A impressão que temos à primeira vista é que a narrativa é uma completa ficção científica, com elementos fantasiosos e improváveis, mas neste artigo vamos te mostrar como Katla fala muito mais da realidade do que da ficção, partindo de um mistério até chegar aos sentimentos humanos mais profundos da dor do luto e da perda.

Um pano de fundo

O local escolhido para a ambientação do mistério reforça ainda mais a criação da atmosfera de suspense, principalmente se levarmos em conta que a aldeia islandesa existe na vida real. 

Assim como na série, o povoado é rodeado por uma praia de areia basáltica (escura) e está próximo do vulcão Katla que, apesar de coberto por uma geleira, é considerado um dos mais ativos da Islândia. Por conta disso, a população local vive em alerta constante e se prepara para fugir diante de possíveis erupções. 

Não diríamos que o lugar é inóspito, afinal, a população é estimada em torno de 318 habitantes, mas condições climáticas como o frio e a possibilidade de erupção ou inundações causados pelo derretimento da geleira tornam o local mais atraente para turistas do que para moradores.

Com este pano de fundo, a vila se torna perfeita para uma história de mistério e suspense. 

Uma breve sinopse (com spoilers)

A série explora muito bem esse ambiente, sendo a própria ilha uma metáfora para o luto: um lugar frio, com tempestades de cinza, isolado e que está à mercê de um vulcão que está em ameaça constante.

Neste cenário, uma mulher surge coberta de cinzas e se identifica como Gunhild. Ela é muito parecida com outra Gunhild, que esteve na ilha há 20 anos atrás, mas era como se o tempo não tivesse passado para ela. 

Tudo fica mais estranho quando a Gunhild de 40 anos aparece na ilha e se depara com a versão dela mesma aos 20. Aí nos damos conta de que elas são a mesma pessoa em épocas diferentes.

O mesmo acontece com outros personagens: 

  • Asa desapareceu um dia na neve e reapareceu depois de um ano sem saber dizer o que aconteceu;
  • Mikael era filho de um geólogo. Ele reapareceu três anos depois de ter sido atropelado e morto;
  • Magnea estava praticamente em estado vegetativo, mas uma versão sua saudável e mais jovem surgiu das cinzas;
  • Grima se deparou uma versão dela mesma antes das crises de depressão e ansiedade, quando ela era feliz.

A aparição desses personagens cria o tom de mistério, ainda mais quando uma das funcionárias do hotel explica que talvez esses novos habitantes sejam “changelings”, ou seja, pessoas de um povo oculto e mágico que vivem como humanos. Também é revelado que esses relatos já aconteceram várias vezes e que o ciclo sempre se repetia. 

O papel das lendas e do folclore

As lendas e folclores são histórias que espelham o modo de viver e de pensar de um povo. Normalmente isso é feito com uma grande quantidade de símbolos.

Para Jung, esses símbolos e significados são compartilhados por todas as pessoas, independente do local e do tempo que elas vivam. Assim, mesmo que alguém não tenha acesso a uma história específica, o inconsciente será afetado por esses símbolos e significados. 

Por isso, quando os habitantes de Vík passam a viver em contato com essas pessoas cobertas de cinzas, elas estão entrando em contato com suas próprias dores, sentimentos e com o seu luto

Personagens importantes

No final da trama passamos a entender quem são e qual a razão daquelas versões de pessoas aparecerem: é descoberto que debaixo da geleira, no vulcão, existe um meteorito que foi originado de outro sistema solar e que tem uma propriedade diferente: ele é capaz de ler e criar os pensamentos e sentimentos das pessoas.

Assim, como naquela ilha muitas pessoas estavam vivenciando um luto, o meteorito materializou o desejo de cada um de ver seus entes e poder viver mais um momento com eles.

É por isso que as lembranças das versões são as mesmas que as pessoas que pensavam nelas tinham. 

Por exemplo, o pai de Mikael, Darrin, foi o responsável pela criação da versão de seu filho. No entanto, ele tinha vários conflitos familiares, era distante e enxergava o seu filho como uma criança má que colocou fogo na escola.

Por conta disso, a versão de Mikael era tão sombria, pois esta era a imagem que o pai tinha de seu filho. 

Lições sobre o luto e a perda

Ao contrário do que muitos pensam, o luto não é sentido apenas por pessoas que perderam entes queridos pela morte. Existem outras formas de se perder alguém e a série mostra muito bem isso:

  • Asa e Mikael representam o luto mais comum: o de pessoas que já faleceram. Eles são a materialização da nossa vontade de que aqueles que já se foram voltem e que possamos viver mais um momento ao lado deles; 
  • Gunhild e Magnea estão vivas quando as suas outras versões aparecem. Elas representam pessoas que uma vez estiveram presentes em nossas vidas e não estão mais. A perda aqui é pela separação e pela doença que geraram em seus parceiros saudade, um vazio e desejo desesperado de um reencontro;
  • O caso de Grima é um pouco diferente: a sua versão representa como ela era antes dela ficar deprimida e se culpar pela morte da mãe e a infelicidade de sua irmã Asa. Quantas vezes não nos perguntamos: como seria se eu voltasse a ser como antes? Eu era mais feliz naquela época. O luto de Grima é a perda dela mesma.  

A resolução do luto

Cada um dos personagens que provocaram a criação das versões passa por uma resolução do luto:

  • Thor: ele estava confuso quando as coisas começaram a acontecer, mas se deixou envolver novamente pela Gunhild jovem, voltando a repetir um ciclo. Talvez ele tenha desejado que a Gunhild daquela época voltasse para que as coisas fossem diferentes.

A série não deixa claro se ele é um mecânico por profissão ou hobbie, mas na sua oficina bagunçada, que poderia muito bem representar o seu interior, ele cuida de coisas que ninguém se importava.

A resolução do luto está no contato com o filho: talvez alguma coisa dentro do seu interior dissesse sobre a possibilidade de um filho e isso é expresso na cena em que ele relata que cuidava de vários gatos, mas que em uma noite percebeu que o menor deles, o mais frágil, ele não foi protegido do frio. 

Pode ser que ele tenha sentido que não conseguiu proteger o seu filho. 

  • Darrin e Raquel: o pai de Mikael diz que o que estavam vivendo parecia um pesadelo, já para a mãe (Raquel) era um presente que preenchia um buraco e vazio. 

O casal estava vivendo o divórcio, que também era uma espécie de trauma, de morte. Talvez resgatar essa imagem do filho tenha sido uma forma de recuperar essa parte perdida. 

O luto só é resolvido quando os dois sentam pela primeira vez para conversar sobre o que estavam pensando e sentindo. Ambos colocam pra fora tudo o que sentiram enquanto o seu filho estava vivo, falaram sobre culpa e sobre falta. 

Depois tomaram uma decisão de afogar Mikael para que ele não machucasse mais as pessoas.

  • Grima: ela não aceitava que sua irmã estava morta e continuava procurando depois de um ano.

Mas encontrou o corpo da irmã congelado debaixo de uma casa. Talvez essa imagem represente o sentimento de Grima pela sua irmã: uma lembrança que estava paralisada em seu inconsciente. 

Grima e a outra versão da sua irmã conversam na praia e relembram o momento que a mãe delas tirou a própria vida no mar. Na frente do mesmo mar, elas conversam sobre propósito e Asa chega à conclusão de que ele já havia sido cumprido: encontrar o corpo e ajudar Grima a deixar a lembrança de sua irmã ir.

Então Asa entrou no mar, e nesse momento ia embora não apenas a outra versão de Asa, como também a culpa que Grima sentia por não ter conseguido encontrá-la e protegê-la da mesma forma que ela o fez.

Tanto para Asa quanto para Mikael, o destino foi o mar: a imensidão, o esquecimento. O propósito dos dois foi o mesmo: ajudar seus parentes a aceitar que eles teriam que ir. 

  • Grima: além de sua irmã, uma versão da própria Grima aparece, dessa vez para representar quem ela era antes. 

Ela é um pouco diferente dos outros: ela provoca, faz Grima refletir sobre si mesma: Qual o seu propósito? Qual a sua primeira lembrança? Quem você gostaria de ser? 

Essa outra versão veste amarelo (uma cor que representa vida) e assim que chega começa a fazer uma faxina e mudar a cor das paredes para trazer mais vida. Ela apreciava o amor do marido, amava a lembrança da irmã, perdoava o pai e a mãe pela solidão que sentia.

A outra versão de Grima abriu os olhos dela para a vida: ela se reconciliou com ela mesma e passou a enxergar a vida com outros olhos, superando seu luto e tendo um maior conhecimento sobre si mesma.

Katla mostra de forma brilhante como entrar em contato com esses símbolos ajuda os personagens a resolver seus conflitos e a terem um maior conhecimento sobre eles mesmos. O diálogo com essa parte permite uma transformação. Quando eles aceitam, absorvem e vivem o luto, podem superá-lo. Katla demonstra, de uma forma gráfica, como ressurgir das cinzas a imagem e a memória de alguém pode trazer efeitos e consequências prejudiciais para a nossa vida. 

E você já passou por um luto? No nosso blog temos textos de psicólogos para te ajudar a viver o luto de uma forma mais saudável!

Referências

  1. https://www.ijep.com.br/artigos/show/a-importancia-do-aspecto-irracional
  2. https://blog.psicologiaviva.com.br/luto-mais-saudavel/
  3. http://www.hcfmb.unesp.br/wp-content/uploads/2015/02/AN%C3%81LISE-JUNGUIANA-DA-ELABORA%C3%87%C3%83O-DO-LUTO-PELO-CUIDADOR-FAMILIAR-ANTE-A-MORTE-IMINENTE-DO-PACIENTE-TERMINAL.pdf
  4. https://blog.psicologiaviva.com.br/luto/
  5. https://blog.psicologiaviva.com.br/como-posso-lidar-com-a-perda/
Psicologia Viva
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