Psicologia geral

Suicídio? Melhor Prevenir!

Há um consenso científico em todas as áreas da saúde que para a maioria de doenças, tanto físicas quanto psicológicas, a melhor forma de cuidado é priorizar a prevenção.

Em algumas patologias, o risco de morte ou sequelas físicas e emocionais na pessoa e seus familiares ou entes queridos podem ser evitados com a divulgação de informações a respeito.

A prevenção do suicídio é possível e necessário, as campanhas têm sido intensificadas, pois os números estão cada vez mais alarmantes e há um retrocesso na qualidade de vida dos sobreviventes que atingem níveis graves e irreversíveis.

É necessário que se cuide e seja dado importância aos fatores psicológicos, da mesma forma que se dá aos físicos. 

A prevenção, nesses casos, ocorre através do autoconhecimento da vida emocional, como ela se manifesta, quais as possibilidades de uma melhora em sua qualidade e possibilidades de lidar com problemas afetivos.

A importância dos vínculos

As pessoas se relacionam com as outras e com as coisas através de vínculos. Os vínculos nada mais são que suas ligações com o mundo exterior e com a vida. Quanto mais vínculos saudáveis, melhor. Portanto, devemos analisar os vínculos tanto de forma qualitativa quanto de forma quantitativa.

Em termos de quantidade, sua diversidade oferece uma gama de possibilidades, evitando assim que haja escassez de opções. O excesso de vínculos pode facilitar a dispersão de energia e dar a sensação de que não se conclui os projetos e relações, o ideal é o equilíbrio de acordo com a capacidade de cada um.

A qualidade diz respeito a vínculos saudáveis, aqueles em que a pessoa se sinta à vontade para ser autêntico, criativo e com liberdade de escolha. São aqueles em que há circulação de afetos, amorosidade, respeito, parceria e companheirismo, o contrário disso chamamos de vínculos tóxicos, aqueles que produzem patologias. 

Formas existenciais saudáveis de vida emocional

É importante que se tenha projetos pessoais e engajamento em projetos coletivos para que haja sentido na vida. O sentido da vida deve ser criado e recriado no dia a dia, momento a momento, sendo uma construção permanente através de projetos a longo, médio, curto e curtíssimo prazo. 

Projetos múltiplos são importantes para que a pessoa tenha a liberdade de escolha, e caso um deles esteja em compasso de espera ou seja frustrado, tenha outro para dedicar sua existência e com isso abrir o que se chama de “janela de oportunidades”, ou seja, um modo de vida saudável.

Um projeto de vida único caracteriza-se em uma neurose obsessiva e caso não tenha sucesso poderá levar o sujeito a quadros depressivos, melancólicos, ansiosos e angústia.

A ausência de projetos pode ocorrer em qualquer fase da vida, provocando sintomas como ansiedade, tédio, desânimo e desesperança. E cada uma delas deve ser enfrentada considerando as peculiaridades inerentes a infância, adolescência, juventude, maturidade e terceira idade.

Um exemplo a considerar é o índice de depressão em pessoas idosas, por existir uma expectativa social e muitas vezes pessoal de não criação de novos projetos e o encerramento de atividades produtivas tanto físicas como intelectuais.

Autenticidade, criatividade e liberdade de escolha

A construção de projetos múltiplos de vida, para serem considerados saudáveis, necessitam ser autênticos, isto é, que estejam de acordo com sua essência, reflitam sua personalidade, provoquem alegria, estimule prazer, tragam possibilidade de momentos felizes e satisfação.

Portanto, não irão agredir sua forma de ser e produzir conflitos internos, nem provocar sofrimento psíquico. É importante que se tenha projetos em todas áreas da vida: na família; no trabalho; nos relacionamentos amorosos e demais. 

Tais projetos devem favorecer criatividade e a liberdade criativa, para com isso, estimular suas potencialidades e seus talentos. Assim sendo, não serão entediantes, desanimadores, desestimulantes e serão de acordo com suas possibilidades, não vão passar seus limites e a pessoa sentira que será parte construtiva deles. Projetos criativos refletem o seu ser e são representados por ela, portanto saudáveis, produtores de alegria, prazer, satisfação e vinculação positiva com a vida.

E não mais importante que os outros, projetos que favoreçam a liberdade de escolha. Que tenham flexibilidade para que não se sinta preso a ele, a ponto de abrir mão de uma vida criativa e autêntica dentro desse projeto ou com a possibilidade de transformá-lo.

Resiliência e Frustração

Resiliência é a capacidade de superar frustrações e percalços e retornar a um estado psicológico de equilíbrio e harmonia, sem criar vínculos negativos e sentimentos e sensações doentias.

Para que isso aconteça, é necessário trabalhar a possibilidade de frustração, se isso não foi construído no decorrer da infância e adolescência, será necessária que aconteça na fase adulta. Não é saudável imaginar que todos os desejos serão atendidos e imediatamente.

Muitos desejos e projetos poderão ser frustrados e essa possibilidade deve estar no horizonte, para que a pessoa não se sinta onipotente a ponto de não poder ser contrariado. Colocar esses conceitos nos projetos de criação de filhos é importante e um fator de prevenção. Projetos coletivos ajudam muito nesse desafio.

Como saber se você precisa de ajuda?

Pensamentos persistentes e ideações suicidas são sinais de alarme, mesmo que sejam em tom de brincadeira. 

Sempre que aparecer esses sintomas, procure ajuda:

  • Sentir que a capacidade de lidar com determinada situação está esgotada e que não pode superar tal frustração.
  • Achar que a vida está sem objetivo, autenticidade, criatividade e liberdade.

Uma consulta com um psicólogo, para que através da psicoterapia, possa ser feito um diagnóstico psicológico e, se necessário, intervenções visando o autoconhecimento de questões conscientes e inconscientes e o tratamento de possíveis patologias. O mesmo para pessoas conhecidas, indique um profissional.

Algumas pessoas pensam que tais questões possam ser resolvidas por si mesmo ou com a ajuda de amigos, e por estarem envolvidas emocionalmente e não terem o distanciamento afetivo necessário para essa análise, não há uma resolução significativa, apenas paliativa.

O resultado de um bom bate papo pode mascarar uma situação mais grave, pela sensação de alivio momentâneo. E com isso, não é incomum as pessoas recorrerem a medidas extremas e até irreversíveis, como por exemplo o suicídio.

Lembre-se: quanto antes a prevenção for feita, maiores são as possibilidades de intervenções clínicas e, consequentemente, resultar em maior qualidade de vida e vínculos saudáveis.

 

Referências Bibliográficas

BINSWANGER, Ludwig. Três formas da existência malograda. 1 Ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.

FREUD, Sigmund. Obras completas tomo II.4 Ed. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981.

PICHON-RIVIERE, Enrique. Teoria do vínculo. 3 Ed, brasileira São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora, 1988.

Rafael Marmo
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