Desenvolvimento pessoal

Relacionamento abusivo: por que sustentar este abuso?

Em se tratando do tema relacionamento abusivo, comumente umas das frases mais clichês são aquelas do tipo “isso não é amor”, ou “tenha mais amor próprio”. Mas será mesmo que quando se trata dessa modalidade de relacionamento não há amor? O que será que as pessoas querem dizer sobre esse tal amor próprio?

Ressalto que a minha intenção neste texto não é apresentar características do que seja um relacionamento abusivo, mas sim a tentativa de fazer você refletir sobre esse assunto, e também de pensar possíveis causas que permitem a vítima da relação sustentar esse lugar.

Vamos pensar pela via do amor. O que será esse sentimento?

Ora pois, para explicar isso talvez teria que recitar as mais lindas e trágicas poesias, poemas e músicas que enlaçam a pessoa que ama de tal forma, fazendo com que esta pessoa leia ou repita a mesma música grande quantidade de vezes.

A arte encarna o amor de maneira simbólica, o que de fato nos ajuda a elaborar palavras que explique o que se sente, ou seja, a arte é uma das tentativas para elucidar o que é o amor, trazendo para o campo do simbólico o sentimento, transformando o amor em maneiras tangíveis de vivenciá-lo.

Mas de forma teórica, o amor seria buscar no Outro aquilo que falta em si próprio, buscando neste Outro uma forma de completude. Pode escutar frequentemente no senso comum que “amar é fazer de dois corpos um único”, como uma espécie de simbiose.

Nesta obstinação, o sujeito tende a renunciar grande parte de seu desejo; afinal, para ser amado(a) é necessário abrir mão de algo próprio, porém este ato se faz em movimento de troca, pois renuncia parte do desejo para ganhar algo com isso, neste caso seria o amor da outra pessoa.

Já que toquei nesse assunto “algo de troca”, irei abordar sucintamente parte do conceito freudiano de narcisismo secundário, neste movimento o sujeito deposita em seu nível externo sentimentos internos, com intuito de receber algo em troca, pensando pela via do amor, podemos dizer: “eu amo para ser amado(a).”

Outro quesito interessante no amor também pode passar pela transferência. Brevemente dialogando este conceito com o tema, poderia dizer que quando se ama alguém (o sujeito) inconscientemente transfere ao Outro todos seus próprios sentimentos, desde o mais belo ao mais terrível. Caso acabe esse relacionamento logo, buscamos outra pessoa, e quando encontramos, o mesmo sentimento se repete, ou seja, o amor está dentro de si próprio, ele apenas se encarna no Outro. Essa é outra maneira de simbolizar nossos sentimentos.

O amor pode ser reconhecido como o principal elemento que nos permite fazer laços sociais, é aquilo que nos faz sem saber ao certo o motivo. Querermos tanto estar ao lado de alguém, ou odiarmos tanto alguém que simplesmente sua presença nos incomoda ao ponto de se escolher retirar-se do local, por exemplo.

O amor é o que nos proporciona sentido para acordar e sair da cama, o investimento amoroso não se direciona apenas aos seres humanos, mas em tudo aquilo que tenha sentido para você, desde aquelas coisas deliciosas de vivenciar até aquelas que nunca mais queira. Afinal, te marcou de maneira absurda!

Resumidamente o amor não é apenas o romantismo que escutamos, amor é a transferência, ou seja, todo sentimento que nos inere a algo, que faz existir em nossa memória momentos, pessoas, tudo em geral que te faça existir é o amor. 

Relacionamento abusivo e o amor

Bom, se você leu toda a escrita até aqui, percebeu que amor não se delimita apenas ao lado positivo da vida, mas sim a tudo aquilo em que você deposita em alguém. Então, talvez agora fique um pouco mais fácil de perceber que nos relacionamentos abusivos existe amor sim, mas em sua performance mais terrível, naquela que machuca, que se direciona ao movimento masoquista, pensando pela lógica da autoagressão, afinal, quando se sustenta um relacionamento, algo em troca se recebe.

E o que será que essa forma de amar proporciona a você que sofre com isso?

Óbvio que esse texto não diz respeito aos casos tétricos, como por exemplo, uma pessoa que esta sob ameaça de morte, ou sua família. Mas me refiro àqueles casos os quais a pessoa tem a escolha de continuar ou não no lugar de vítima, porém insiste em sustentar um relacionamento que o(a) agride em nível corporal e psíquico.

Se pensarmos pela via que o amor é o que faz você dar sentido e sustentar as relações, estaremos falando da esfera interna do sujeito encarnada na externa, ou seja, o amor próprio. A pessoa mesmo que, sem perceber, vivencia todos os dias seus piores dias por amar alguém ou uma situação, nesta lógica estamos dizendo sobre uma maneira própria de amar, seja positiva ou negativa, uma forma peculiar de depositar no mundo o seu mundo, mesmo que sem intenção consciente se depara com seus piores pesadelos reencontrados na relação amorosa.

Talvez agora seja uma oportunidade para refletir o motivo dessa escolha de amor: o que será que movimenta em você sua fantasia de auto anulação para poder enxergar e amar alguém? Essa será a sua única forma de amar?

Caso responda que sim, pois percebe que em todo relacionamento se repete o lugar de vítima, saiba que é possível modificar essa construção, mas para isso é necessário desconstruir esse sentido que foi dado ao amor, não se trata de ser “a pessoa mais feliz do mundo no amor”, mas de redescobrir as causas que te fizeram vivenciar esse fenômeno sentimental de forma intermitentemente perante ao sofrimento. 

Vale ressaltar que desconstruir sua maneira de amar não mudará as pessoas, mas mudará suas escolhas íntimas, sua forma de experienciar os laços sociais. Você não deixará de ser quem é, afinal, ninguém se cura de si mesmo, mas algumas feridas podem ser curadas, mesmo sabendo que o sofrimento faz parte, não quer dizer que é necessário sustentar um movimento de masoquismo com isso que chamamos de amor.

De fato, ao amar alguém sempre renunciamos algo, mas até que ponto seu retorno está sendo proporcional ao que você tem investido?

 

Fernanda Dalla Paula

CRP 04/53143

Fernanda Dalla Paula Donato
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