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Suicídio: seus 10 maiores mitos e como a terapia pode ajudar

O psicólogo trabalha para que o copo não transborde. Para que a sua paciência não acabe. Para que o seu desespero não seja maior. Além disso, também trabalha para que você nunca leia a carta de despedida que seu familiar já escreveu.

Isso se chama prevenção do suicídio. Sabe como funciona? 

Prevenção                                                                                                                                                                     

Comece prevenindo o desespero, a desesperança, o desamparo e a depressão. É o que os livros dizem. Certo. Esses são pontos muito importantes para trabalharmos. Mas como se faz isso?

Na prática, o(a) paciente manda e-mail de madrugada. Os(as) pacientes da vida real chegam com marcas de corda no pescoço ou com os braços cheios de cicatrizes. Marcas dos cortes. Vejo ali as diversas tentativas de não estar mais aqui. Surgem tentativas de interromper a vida quando ela já parece sinônimo de sofrimento.

Experiência de trabalho

Comecei a trabalhar com esse tema em 2016. Eu trabalhava todos os dias em um cenário no qual o cheiro de morte pairava discretamente pelo ar. Só quem já sentiu que poderia perder um(a) paciente sabe o que é.

Esse cheiro faz com que o(a) paciente fique parcialmente desconectado(a) do universo. E eu fico ali tentando falar com ele(a). É difícil não só por causa do cheiro, mas por causa do peso. O cheiro de morte é pesado. Ele vai contaminando tudo por perto se você se distrair. Então, eu não me distraio. Eu me concentro.

Eu vou lá frente a frente com o perigo e respiro profundamente o cheiro de morte. Faço com que o(a) paciente perceba que eu estou sentindo aquele cheiro. Eu estou alerta. E que, assim como eu coloquei o ar para dentro, vou colocá-lo para fora. O mesmo vale para o(a) paciente. 

Assim como a ideação suicida um dia entrou em sua cabeça, ela um dia vai sair. E eu respiro o ar da morte quantas vezes forem necessárias. Respiro até o(a) paciente entender que o ar e os nossos pensamentos, simplesmente, passam por nós.

E devem passar. Devem renovar-se. É preciso respirar fundo e devagar até que tudo se acalme.

Não fique sozinho(a)

Nem sempre tudo se acalma. A morte é muito potente, é verdade. Ela é assustadora minuto a minuto.

Afinal, a morte sempre pega a gente desprevenido. Então, o jeito é ter alguém ali respirando junto. Segurando a mão, abraçando, conversando, deixando chorar, tremer, engasgar. Assoar o nariz também pode. Assoar o nariz ajuda a afastar a morte. 

Quanto mais alguém chora e assoa o nariz, mais o ar pesado da morte é posto para fora. Quem assoa o nariz é porque ainda quer viver, ainda quer respirar. Só assoa o nariz quem quer ter dentro de si um ar renovado.

Então, prevenção do suicídio e assoar o nariz tem tudo a ver. Depois de anos de trabalho nessa área, eu vi de braços cortados a narizes assados, mas nunca vi o pulmão de algum dos meus pacientes perder a capacidade de respirar. 

Esse cheiro de morte pode ser compreendido como uma metáfora para falarmos da ideação suicida ou dos pensamentos sobre morte.

Existe tratamento para essa vontade de desistir de tudo e para excesso de tristeza, desespero, solidão, decepção, frustração. Existem técnicas científicas que são capazes de aliviar a angústia, a ansiedade e o sofrimento.

A psicoterapia promove saúde, bem-estar e qualidade de vida. A orientação psicológica é capaz de desenvolver o potencial humano em sua plenitude.

                                                                                            

A seguir, você encontra 10 mitos sobre o suicídio:

  1. Quando alguém sobrevive à tentativa de suicídio é sinal de que vai ficar tudo bem.

Esse é um grande mito envolvendo o tema, pois os riscos após uma tentativa de suicídio não são reduzidos automaticamente.

Muitas pessoas fazem tentativas consecutivas em um curto intervalo de tempo. Portanto, mantenha o nível de alerta e os cuidados caso você conviva com alguém que fez uma tentativa de suicídio recentemente, pois esse é o maior fator de risco para suicídio.

  1. Depois do tratamento, não há risco de nova tentativa de suicídio.

O risco de suicídio deve ser monitorado mesmo após a alta de um tratamento psicológico e/ou psiquiátrico. Caso os pensamentos de morte retornem, é necessário buscar ajuda profissional o quanto antes, pois pode ser necessária a retomada do tratamento.

  1. Crianças não se matam.

Infelizmente, os casos de suicídio infantil ocorrem. No entanto, podem estar subnotificados, pois nem sempre as circunstâncias da morte ficam evidentes, podendo-se confundir suicídio com um acidente.

No entanto, a prática clínica demonstra que crianças e adolescentes podem apresentar ideação suicida e precisam de cuidados especializados.

  1. Homens e mulheres utilizam os mesmos métodos de suicídio.

Esse mito demonstra a complexidade do fenômeno do suicídio, pois homens e mulheres costumam utilizar diferentes métodos para colocar fim às suas vidas. Homens costumam utilizar enforcamento e armas de fogo, enquanto predomina a opção pelo envenenamento/intoxicação entre as mulheres.

  1. No Brasil, o número de suicídios vem diminuindo.

Nos últimos anos, o número de tentativas e de mortes por suicídio no país aumentou. A prevenção do suicídio como uma prioridade de saúde pública. A nível mundial, o suicídio é a segunda causa de morte de pessoas entre 15 e 29 anos conforme dados da Organização Mundial da Saúde.

  1. Falar sobre suicídio induz as pessoas a se matarem.

Ao contrário do que se pode imaginar, falar sobre suicídio de forma profissional e bem organizada é uma forma eficaz de orientar as pessoas e estimular para que encontrem outras formas de lidar com o seu sofrimento.

  1. Pessoas que pensam em se matar estão, obrigatoriamente, deprimidas.

Diversas circunstâncias podem estar relacionadas a uma tentativa de suicídio. A depressão costuma estar presente em muitos casos, mas não é o único fator de risco.

Transtornos de humor como a bipolaridade e o abuso de substâncias lícitas (bebidas alcoólicas) e ilícitas também possuem importante correlação com tentativas de suicídio. Não obstante, também existem pessoas que não estão deprimidas e que tentam se matar. 

  1. Quem pensa em se matar fica triste o tempo todo.

Esse mito reflete uma visão estereotipada das pessoas que apresentam ideação suicida, pois a tristeza não costuma ser manifestada constantemente. As manifestações de tristeza podem ocorrer intercaladas com manifestações de raiva, nojo, desesperança e medo. 

  1. Nunca vi nenhum caso de suicídio. Isso está longe de mim.

As taxas de suicídio do Rio Grande do Sul estão entre as mais altas do país. Existem cidades gaúchas com taxas que são mais do que o dobro da média nacional.

Conforme dados de 2016 da OMS, ainda cabe ressaltar que 79% dos suicídios ocorreram em países de baixa e média renda – evidenciando um nítido sinal de alerta para a importância das campanhas de prevenção. 

  1. Pessoas inteligentes não se matam.

A inteligência não é capaz de evitar isoladamente uma tentativa de suicídio. Pessoas inteligentes também precisam de ajuda quando estão tristes, desesperadas e desesperançosas.

Afinal, diversos suicídios ocorrem impulsivamente diante de momentos de alto estresse como problemas de saúde, dificuldades financeiras e términos de relacionamento. 

O primeiro passo

Agora que você já aprendeu bastante sobre a importância de não sofrer sozinho(a), você pode dar o primeiro passo na direção da sua melhora.

Ofereça tratamento psicológico profissional para quem estiver sofrendo ou busque esse apoio para você mesmo. Uma primeira consulta já será o suficiente para você começar a vencer a vontade de desistir de tudo.                                                                                                        

 

Fonte dos dados

Site da Organização Pan-Americana da Saúde:

https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5671:folha-informativa-suicidio&Itemid=839

Site do Ministério da Saúde:

http://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/44404-novos-dados-reforcam-a-importancia-da-prevencao-do-suicidio 

Gabriela Ballardin Geara
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