Psicologia geral

Angústia e ansiedade: Entenda a diferença entre elas

O uso cotidiano

No dia a dia do trabalho psicológico, é comum profissionais pensarem em diferentes níveis de sofrimento mental e indisposições físicas que podem atravessar a vida das pessoas, como, por exemplo, casos de angústia e casos de ansiedade.

A mesma coisa acontece no cotidiano: geralmente, usamos angústia para nos referir a uma denominação mais ampla de sofrimento duradouro; já o termo ansiedade é ainda mais difundido para diversas manifestações emocionais e físicas, podendo abranger inclusive sensações de ânimo antecipatório, como quem diz que está ansioso para um evento importante.

Assim, neste texto buscaremos rapidamente considerar os significados possíveis destas duas palavras tão presentes quando falamos de sofrimento psicológico, com o intuito de ajudá-lo a melhor perceber, compreender e nomear o que pode estar acontecendo diante de manifestações afetivas e emocionais.

Ansiedade e diagnósticos

A ansiedade, colocada como “mal do século”, está presente em nossas vidas, constitui-se de forma adaptativa e corresponde a um estado duradouro, que se estabelece quando o indivíduo se vê diante de incertezas que carregam em si um dano potencial do qual não é possível defender-se.

Soa familiar? A ansiedade esteve presente em nossa história evolutiva. O medo é uma palavra mais bem definida e utilizada, e diz respeito à nossa reação frente a perigos imediatos, que já se apresentaram; já a ansiedade diz respeito ao perigo possível, ela serve ao propósito de antecipar reações a algo que pode ser danoso para nós.

O problema começa quando as manifestações de ansiedade deixam de nos preparar para perigos reais e, em vez disso, passam a nos impedir de realizar atividades cotidianas.

Definimos que a ansiedade é uma resposta natural do corpo, possui então base genética, e depende de condições do ambiente para aparecer. Os manuais de psiquiatria possuem definições claras de quando vivemos uma ansiedade adaptativa e quando ela se torna parte de uma doença, sendo os principais critérios a intensidade e duração, ou seja, para que a ansiedade seja “útil”, ela deve nos preparar para tomar ação e se dissipar logo depois.

Ora, se a ansiedade nos prepara para agir no futuro, e pessoas relatam ficar paralisadas por causa dela, estamos falando de uma intensidade muito grande e que tira qualquer benefício possível desta sensação. E se a ansiedade não passa depois de vivenciar-se o evento que a gera, significa que ela teve duração maior do que algo que poderia te preparar para esse evento.

Além de tudo isso, há relatos de ansiedades que surgem sem que possamos dar-nos conta sobre aquilo que a está gerando! Tudo isso entra no hall de manifestações possivelmente patológicas, ou seja, relacionada à doença da ansiedade.

Vimos então que a ansiedade pode entrar como um sintoma dentro de determinados contextos, e esses sintomas e contextos por vezes caracterizam o quadro de transtornos e problemas relacionados à mente.

Pelo fato da ansiedade ter intensa manifestação corporal, como a sensação de falta de ar, é um pouco mais fácil de ser identificada, além de ser um tópico muito falado na mídia. É importante, porém, entender que nem toda manifestação ansiosa é patológica e negativa! Porém, sempre precisamos nos manter atentos para o que essas sensações querem nos dizer.

Angústia e a condição humana

Hoje em dia certamente é difícil encontrar alguém que não tenha vivido problemas em decorrência da ansiedade, porém este sintoma não entra no repertório de sensações de muitas pessoas, ou é decorrente de momentos específicos de suas vidas.

O mesmo não pode ser falado da angústia. Esta específica forma de sofrimento é essencial e fundamenta nossa experiência enquanto seres humanos.

A angústia enquanto categoria de sofrimento nos remete a algo que impulsiona nossas mentes ao movimento, à mudança de lugar; sem ela, estaríamos para sempre contentados. Diz respeito a manifestações corporais também, como apertos no peito, mas não como são na ansiedade. É uma dor que simboliza uma necessidade psicológica, uma necessidade de descarregar a tensão, de falar sobre o que se sente.

Alguns psicólogos apontam a angústia como motor da terapia, algo que, mesmo sem que percebamos, nos impulsiona a tomar atitudes que mudem de maneira substancial nossa relação com diversos aspectos de nossas vidas, sejam relações interpessoais, com o trabalho, com nosso próprio corpo e com a sociedade na qual vivemos.

O que gera angústia é posse de cada um, dentro de suas próprias vivências, e muitas vezes a vontade de desvelar nosso mundo interno nos leva a procurar um psicólogo.

Agora, temos também casos de angústia que, por acúmulo, acabam por fazer justamente o contrário do que se espera, que é gerar movimento. Um sujeito que se vê aplacado pela angústia, sem saídas possíveis para seu escoamento, pode ficar à mercê desse sofrimento, com sérias dificuldades de tocar sua vida, de procurar ajuda no outro e mesmo de se reconhecer.

Precisamos sempre estar atentos ao quanto estamos em sintonia com nosso mundo interno. A angústia, quando ignorada ou deixada de lado, pode se acumular de forma a transbordar e impedir que elaboremos avanços psicológicos a partir dela.

Rotinas muito cheias, uma vida pouco equilibrada e falta de sintonia com si mesmo podem fazer com que mesmo manifestações de angústia leves sejam impossíveis de se lidar, porque para trabalhar com a angústia é necessário ter tempo para si.

A vantagem de falar sobre aquilo que nos faz sofrer

Vimos que a angústia e a ansiedade possuem distinções quanto ao impacto possível em nossas vidas; e também semelhanças que explicam porque esses termos são usados muitas vezes como sinônimos.

É de se esperar que definições sobre questões tão complexas sobre nossa mente sejam difíceis de se captar imediatamente, é apenas com trabalho contínuo que podemos distinguir as fontes de sofrimento em nossas vidas.

Quanto a isso, que seja cada vez mais possível falarmos abertamente sobre a necessidade dessa compreensão em prol de uma vida mais saudável. É apenas pelo diálogo e pela implicação dos outros em nossas vidas que podemos elaborar e construir uma melhor compreensão das coisas que nos trazem sofrimento.

Lembrando que, embora nosso sofrimento diga respeito a nós mesmos, é na relação com outras pessoas e, principalmente, na relação terapêutica, que se torna possível a compreensão do que nos constitui.

Referências:

  1. COGHI, Marco F. O medo, a ansiedade e o estresse e a sua importância para a sobrevivência e a evolução das espécies. Cardioemotion, 2016. Disponível em: https://www.cardioemotion.com.br/o-medo-ansiedade-e-o-estresse-e-sua-importancia-para-sobrevivencia-e-evolucao-das-especies/. Acesso em: 03 de abr. de 2020
  2. VIANA, Milena de Barros. Freud e Darwin: ansiedade como sinal, uma resposta adaptativa ao perigo. Nat. hum., São Paulo, v. 12, n. 1, p. 1-33, 2010.
  3. PISETTA, Maria Angélica Augusto de Mello. Considerações sobre as teorias da angústia em Freud. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 28, n. 2, p. 404-417, jun. 2008
Igor Alves Cunha Ribeiro
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