Família

Parto em meio à pandemia

Quando uma mãe descobre a gravidez, acontece um misto de emoções, independente se foi planejada ou não. Inúmeras dúvidas e muitas preocupações, as primeiras semanas são basicamente de assimilação, organização de ideias, início de expectativas, etc. e não demora muito para que venham os pensamentos e planejamentos a respeito do parto. Afinal, é um momento importante e marcante na vida mulher, que ela lembrará e reviverá por muito tempo.

A partir daí surgem grandes medos, preocupações, fantasias, vários julgamentos pelas escolhas feitas e possíveis frustrações quando chega o dia e não acontece como ela esperava, angústias que são intensificadas no terceiro e último trimestre da gestação. 

O inesperado

E como fica então quando sua data prevista de parto é para um momento de pandemia, de um vírus altamente contagioso, que ainda não tem vacinas, etc. Neste caso, é recomendado que se fique dentro de casa, e as grávidas são consideradas grupo de risco, mas ainda precisam ir a hospitais para se consultarem e terem o bebê?

Dá para ter uma noção de quanto estresse e medo essa mãe começou a ter? De quanta angústia sentiu ou sente? Ela com certeza não imaginava e nem queria isso. São muitas preocupações!

Medos e mais medos 

Agora, além do medo inicial gerado pelo parto, soma-se a isso a dor que sentiria, as possíveis intervenções, a amamentação, etc.

Existe a preocupação da contaminação, de expor seu filho a tudo isso, ainda mais se o bebê precisar de internação (afinal, seriam mais dias no hospital), medo por não ter a rede de apoio que teria se não houvesse esse novo vírus, medo de ficar sozinha, medo de não conseguir, de falhar.

As crises de ansiedade aumentam, tornam-se mais frequentes, somados a todos os sintomas da gravidez aos da ansiedade, que fazem muitas vezes a mãe se sentir até culpada por tudo o que está sentindo.

Essa mulher está sozinha dentro de casa (ou pelo menos se sentindo), vivenciando aquilo que não planejava, numa rotina diferente da que tinha, entediada, sem fazer coisas que gosta de fazer, com milhões de pensamentos e, provavelmente, longe fisicamente da maioria das pessoas que ama. 

Calma…vai ficar tudo bem!

Não se sinta culpada por tudo o que tem sentido, você tem se preocupado com algo real, mas lembre-se que se preocupar exageradamente pode não ajudar e, às vezes, até atrapalhar.

Ainda existem muitos estudos a serem realizados, e não se sabe ao certo se existe uma contaminação vertical, e quais as implicações para o bebê nos casos que a mãe contrai o vírus.

Embora você sinta ou tenha sentido todos esses medos, eu digo: calma! respira; concentre-se naquilo que está em seu controle. Veja algumas coisas:

  • Redobre os cuidados com a higiene da maneira que puder, lave mais as mãos, higienize mais as coisas, principalmente as que vem de fora, evite o que tiver como evitar;
  • Seja assertiva com relação às visitas de parentes quando voltar para casa, lembre-se que é um momento mais íntimo, voltado para a família, e nunca se sabe como os outros realmente estão. Embora seja difícil, pois muitas gostam de compartilhar esse período, toda essa novidade, tenha um pouco de calma e cautela, pois você está enfrentando algo novo;
  • Mantenha contato virtual com pessoas que te ajudem neste momento, que sejam suporte, converse sobre outras coisas, brinque, sorria, é bom não deixar de lado seu ciclo social;
  • Procure acompanhamento psicológico, a psicoterapia auxilia no manejo das crises de ansiedade, além de ser um processo de busca de autoconhecimento e ajuda nessa mudança de etapa, te auxiliará como mulher e como mãe;
  • Busque por grupos e comunidades de gestantes em que você se sinta acolhida, possa compartilhar experiências e possa também aprender com outras que passam por situações semelhantes;
  • Informe e conscientize sua família sobre o quão importante é a rede de apoio para a mãe. O puerpério é uma fase delicada, cheio de mudanças hormonais e comportamentais;
  • Estude com seu(sua) companheiro(a) sobre todo o processo que acontece no parto, no pós-parto, na amamentação e no desenvolvimento do bebê;
  • Preparem juntos as suas coisas e as coisinhas do bebê, deixe tudo organizado;
  • Prepare-se para esse novo estágio, curta os momentos com mais leveza, cante e dance, aproveite suas companhias e tire todas as dúvidas que tiver com a equipe médica que te atende e atenderá!

Hora de ir para maternidade

Você está próxima de se despedir desse barrigão e terá em breve seu bebê no colo, esteja presente para ele, tudo o que aconteceu agora está no passado, não sinta culpa ou preocupação, você possivelmente fez o melhor que podia.

Quando a hora chegar, as contrações aumentarem, esteja atenta ao que sentirá, preste atenção nos sinais, sinta seu corpo e toda a força que você tem. Entre em contato com sua rede de apoio, se possível procure por uma maternidade, lá o fluxo de pessoas com outras queixas é menor. Garanta que esteja com a sua mala e a do bebê prontas, todos os documentos necessários, para não ter mais essas preocupações.

 

Fique tranquila, respire, enfim o momento chegou, em breve essas dores e esse sofrimento acabará, siga o seu corpo e as recomendações que teve durante o pré-natal. 

Que você tenha um bom parto e uma boa lua de leite!

Psicóloga Luísa Dias
CRP: 01/22611

 

Referências Bibliográfica:

Lopes RCS, Donelli TS, Lima CM, Piccinini CA. O antes e o depois: expectativas e experiências de mães sobre o parto. Psicol Reflex Crit. 2005 Mai-Ago; 18(2):247-54

PEREIRA, M.; LEAL, I. Terceiro trimestre de gravidez: expectativas e emoções sobre o parto. Psicol. saúde doenças, Lisboa, v.16, n.2, p. 254-266, 2015.

Ramalho, C. (2020). COVID-19 na gravidez, o que sabemos?. Acta Obstétrica e Ginecológica Portuguesa, 14(1), 6-7

Sarmento R, Setubal MSV. Abordagem psicológica em obstetrícia: aspectos emocionais da gravidez, parto e puerpério. Rev Ciência Médica 2003 Jul-Set.

Luisa Cristina Dias Neves
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