Saúde

Psicologia, sexualidade e gênero: como a violência de gênero opera na pandemia?

A sociedade funciona ainda com sistemas de marginalização que aumentam a vulnerabilidade de pessoas com as diversas identidades de gênero, principalmente em relação às mulheres e pessoas trans. O machismo, a misoginia, o patriarcalismo e a transfobia são violências estruturais e históricas que atuam horizontal e verticalmente nas camadas sociais oprimindo as existências mais vulneráveis.

O Brasil é um país violento para mulheres e pessoas trans. Cotidianamente, dezenas de mulheres são agredidas e mortas. Além disso, nosso país é o que mais mata pessoas trans no mundo todos os anos. A essa preocupante notificação se soma o fato de que a maior parte dessas vidas violentadas é negra. O racismo é um agravante de toda a marginalização que sofrem mulheres e pessoas trans.

As medidas de isolamento social e a ativação dos lockdowns tomadas pelo governo como enfrentamentos à pandemia da Covid-19 faz com que as pessoas mais vulneráveis sejam obrigadas a se isolarem com seus agressores. As denúncias de violência doméstica aumentaram cerca de 45% só nesse período de crise pandêmica em São Paulo, por exemplo. 

O que é violência de gênero?

A violência de gênero não é somente aquela física, mas também pode ser psicológica, sexual ou até econômica.

Essa violência é praticada contra todas as pessoas com base na histórica desigualdade entre os gêneros, ferindo os direitos humanos e o bem-estar, principalmente, das mulheres e pessoas trans. Entre as opressões diversas que pode sofrer, a pessoa pode ser submetida a agressões físicas, abusos sexuais e estupros, coerção e manipulação emocional, privação de liberdade e do direito de trabalhar, humilhações e proibições de comunicação, entre outras.

A violência de gênero pode estar nas estruturas sociais e instituições, não somente em relacionamentos.

A pessoa submetida à violência de gênero pode ser manipulada a pensar que merece ser violentada, pode sentir culpa e por isso acreditar que deve ser punida. Por conta da situação em que vive, pode não ter condições de liberdade ou de comunicação, sentindo-se confinada e distante de toda e qualquer ajuda. Pode mesmo se ver incapaz de sobreviver fora do relacionamento, uma vez que pode ter sido proibida de trabalhar e, assim, não possui condições financeiras para sair dessa relação violenta.

O impacto psicológico dessas violências faz com que a pessoa tenha baixa autoestima, sua insegurança e ansiedade elevadas, medo e até crises de pânico. Sob a atuação cotidiana dessas opressões, a desesperança e a falta de sentido na vida podem levar a pensamentos suicidas e até a tentativa de suicídio. Esses traumas são profundos e, mesmo que a pessoa consiga apoio e a libertação dessa violência, podem influenciar negativamente por muito tempo sua vida e suas relações futuras. 

Como a violência atua no contexto da pandemia?

O que acontece em tempos de crise pandêmica é que temos a orientação de nos isolar do contato social e nos confinar dentro de nossas residências. Entretanto, para aquelas pessoas que vivem relacionamentos abusivos e/ou violentos, sejam eles amorosos, familiares ou não, isolar-se significa ter de conviver com seu(s) agressor(es) por mais tempo do que antes da pandemia, uma vez que a orientação do governo é isolamento geral.

Embora antes da pandemia a pessoa sujeita a violência já sofria, a exposição à violência aumenta quando existe a obrigatoriedade de que também seu(s) agressor(es) fiquem mais tempo em casa. 

Para aquelas mulheres que já viviam em isolamento social antes mesmo da pandemia, por estarem em relacionamentos abusivos, esse momento de crise pandêmica significa ter de conviver mais tempo com um(a) companheiro(a) agressor(a).

Para uma pessoa trans que já sofria transfobia de sua família antes do isolamento social, com a necessidade de confinamento para evitar o contágio e a impossibilidade financeira de viver sozinha(o), a exposição à violência, negação de sua identidade e transfobia se eleva.

Assim, se a situação de violência já era grave antes da pandemia, agora os números de agressões físicas, sexuais, psicológicas e morais aumentam cotidianamente, por estarem mais vulneráveis as pessoas isoladas com aqueles que as violentam das mais diversas formas. O estado de atenção aos casos de violência de gênero e violência doméstica é redobrado e não deve ser ignorado por ninguém.

Onde posso procurar ajuda ou como posso ajudar?

Se você é uma pessoa que sofre violência de gênero e/ou doméstica, saiba que não está sozinha(o).

É compreensível que você tenha medo de retaliações, sinta que não existe saída e que o sofrimento não acabará. Sua situação é muito difícil e sua dor é legítima. Confie naqueles com quem pode contar e se apoiar de verdade, sejam eles pessoas amigas, familiares, profissionais ou autoridades. Você pode e deve se fortalecer com uma rede de apoio. Você pode ligar para a Central de Atendimento da mulher 180 ou ainda para o Disque Direitos Humanos 100.

Caso você não seja a pessoa que é diretamente violentada, mas presencie essa violência acontecendo, seja com amigos, familiares ou mesmo vizinhos, não deixe de denunciar. Muitas vezes, a pessoa violentada não tem forças ou condições de sequer discar o número das centrais da mulher ou direitos humanos. Mas, você pode fazer isso por ela.

Existe também a possibilidade de realizar denúncia anônima pela internet. Não deixe de ajudar. Você também é importante nessa rede de apoio contra a violência.

A psicoterapia é importante nesses casos?

Com certeza. Como já salientado anteriormente, os impactos da violência de gênero não são só físicos, mas psicológicos e emocionais. Essas opressões podem deixar marcas profundas que reverberam por muito tempo na vida e nas relações da pessoa violentada. Os traumas podem desencadear transtornos de humor, como depressão profunda e ansiedade generalizada, ou mesmo síndrome do pânico, além de outros transtornos psíquicos graves.

Assim, a pessoa pode e deve ser acompanhada por um psicoterapeuta para ser devidamente acolhida e acompanhada. O processo terapêutico vai auxiliar no acolhimento desse sofrimento e dos traumas passados, assim como vai dar suporte para que a pessoa possa se recuperar e se fortalecer psíquica e emocionalmente. Quando necessário, ainda poderá ser acompanhada por um profissional de psiquiatria que indicará o melhor tratamento medicamentoso.

Mais uma vez reforço: você não está sozinha(o). Abrace e se deixe abraçar pela rede de apoio que está disponível para você. Estamos juntos nessa caminhada e lutaremos contra todo tipo de violência. Desejo que se cuide e fique bem!

 

Matheo Bernardino – CRP-08/25791

(Psicólogo clínico de abordagem humanista-existencial) 

Matheo Bernardino
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