Desenvolvimento pessoal

Você conhece a Hipnose Clínica? 

Olá pessoas! Como vocês estão? Venho aqui compartilhar um pouco de informações sobre uma ferramenta terapêutica, que quando associada ao processo de psicoterapia, potencializa esse processo por exercer uma comunicação com padrões psicoemocionais inconscientes que estão por trás de diversas psicopatologias e/ou áreas da vida que necessitam ser desenvolvidas com mais assertividade. Essa ferramenta é a Hipnose Clínica.

Muitas pessoas entram em contato comigo para saber como funciona o tratamento psicológico auxiliado com Hipnose Clínica (ou Hipnoterapia), seja ou para tirar alguma dúvida relacionada a curiosidades, seja para elucidar algum preconceito, assim como também por motivos e interesses pessoais e sobretudo por ouvirem falar sobre o aparecimento de resultados almejados em poucas sessões, visto que de fato a hipnose é uma ferramenta que potencializa os resultados na psicoterapia. 

E por falar em ferramenta, aproveito para dizer que num contexto terapêutico a hipnose é apenas uma ferramenta auxiliar no processo psicoterapêutico e não é considerada como uma abordagem principal, logo, não é que o tratamento psicológico seja direcionado exclusivamente através da hipnose mas a mesma auxilia e potencializa o processo.

O próprio termo Hipnoterapeuta é apenas uma terminologia que indica que um determinado profissional de saúde utiliza a hipnose como ferramenta auxiliar na terapia, mas não se trata de uma profissão regulamentada aqui no Brasil por algum conselho responsável. No entanto a hipnose é reconhecida como ferramenta terapêutica (o que é diferente) pelos conselhos de medicina, psicologia (desde 2000), fisioterapia, odontologia.

Antes de falar sobre a Hipnose Clínica como ferramenta coadjuvante na psicoterapia, gostaria de fazer umas perguntas a vocês:

  • Você já se emocionou ao assistir cenas de filmes na televisão ou cinema? Já observou se nessas ocasiões, em determinadas cenas a frequência cardíaca aumentou, perceberam mudanças no ritmo respiratório ou sudorese nas mãos?
  • Já esteve tão interessado numa leitura de um determinado livro ao ponto de reagir emocionalmente com as descrições das situações no conteúdo dessa leitura?
  • Já ouviu alguma música que lhe remeteu a algum estado emocional ou lembrança de alguma situação relevante na sua vida?

Pois bem, se sua resposta foi sim para essas perguntas, então saiba que nesses momentos você estava em estados hipnóticos.

Mas como assim?

Qual a relação desses estados alcançados naturalmente no nosso dia a dia com a hipnose terapêutica?

Acontece que hipnose sempre existiu em contextos de tratamentos de determinadas patologias, desde os tempos de civilizações antigas, mas sob outras nomenclaturas, porém, numa visão mais contemporânea ela não é apenas uma ferramenta terapêutica mas também é vista como um fenômeno de comunicação possível de alterar a percepção da realidade.

O que é a Hipnose Clínica?

Mas qual seria então a relação das perguntas que eu fiz sobre estados tidos como hipnóticos que alcançamos no dia a dia com atividades rotineiras com a hipnose clínica ou seja, a hipnose terapêutica?

Para entendermos essa relação cabe aqui conceituar a hipnose, que de uma forma didática podemos usar o conceito utilizado pelo terapeuta James Tripp, que é:

Hipnose é a alteração da percepção da realidade individual subjetiva através de uma comunicação verbal ou não verbal. 

Tudo que chamamos de hipnose envolve alterar a realidade com a comunicação ou sugestões. A sugestão que pode ser definida como uma ideia ou crença comunicável, que uma vez aceita pode modificar aspectos cognitivos e emocionais como humor, pensamentos, percepções, memória, comportamentos e estados emocionais (tristeza, alegria, ansiedade, medo etc.).

Ou seja, a hipnose não é somente uma ferramenta terapêutica como também comunicações que exercemos no nosso dia a dia, tendo em vista que certos padrões de comunicações exercem forte influências nas nossas percepções da realidade.

Logo, a Hipnose Clínica (ou Hipnoterapia) é um conjunto de técnicas que utiliza o estado hipnótico, permitindo mudanças na percepção da realidade subjetiva através de uma comunicação potencializadora que estimula a auto-percepção, assim como o acesso aos estados psicoemocionais relacionados com a demanda apresentada, propiciando assim uma ressignificação dessa realidade interna.

Perspectivas teóricas que fundamentam a utilização da Hipnose Clínica

Hoje em dia a hipnose clínica é vista sob duas perspectivas teóricas que são: a perspectiva de estado e não estado.

Teorias de estado: Que preconizam que a hipnose ocorre devido a um estado alterado de consciência, o chamado transe hipnótico e que é preciso entrar nesse estado de transe para que mudanças sejam efetuadas;

Teorias de não estado: Que preconizam que a hipnose é um comportamento e uma atitude mental, podendo ocorrer inclusive de forma natural em determinados períodos do dia… essa perspectiva está mais relacionada com as perguntas que fiz no início, pois, visto que não envolve necessariamente um estado alterado de consciência ou um transe hipnótico mas sim estados naturais possíveis de serem alcançados de acordo com a crença e expectativa envolvidas no contexto em que ocorrem esses estados.

E por que é importante falar sobre essas duas perspectivas teóricas sobre a hipnose? Penso ser importante porque muitas pessoas entram em contato com a demonstração da hipnose num cenário de entretenimento, seja através de um programa de televisão, demonstrações na rua, ou pela internet, muitas vezes num contexto mais descontraído, sendo que nessas situações a pessoa que está sendo submetida à prática geralmente aparece num estado passivo, com aspecto de sonolência devido ao relaxamento, sendo esses aspectos sempre associados ao transe hipnótico, dando espaço para especulação de que nesse estado a pessoa está totalmente suscetível de forma absoluta às sugestões dadas pelo hipnotista.

Na verdade essa especulação é um dos mitos associados à hipnose, que aproveito aqui pra falar sobre mais alguns.

Mitos sobre a Hipnose Clínica

  • Hipnose é um estado semelhante ao sono. Não! A hipnose não tem nada a ver com o sono, pois a pessoa estará totalmente consciente e ativa. O que pode acontecer é que, estimulado pelo relaxamento, a pessoa acaba por pegar no sono se tiver dormido mal à noite ou estiver muito cansado. Inclusive, uma informação curiosa sobre a nomenclatura da hipnose é que o termo “hipnose” foi cunhado pelo médico James Braid no século XVIII. Braid acreditava que as pessoas sob o suposto estado alterado estavam meio que dormindo, logo, o termo hipnose tem referência ao deus grego do sono Hipnos. Após perceber que a hipnose não tinha nada a ver com sono, ele tentou mudar o nome do fenômeno para monoideísmo, mas o termo hipnose já havia se popularizado;
  • Se for e não voltar, se eu dormir e não acordar? A pessoa estará totalmente acordada e se por algum motivo, geralmente influenciado pelo relaxamento, a pessoa dormir, ela acordará normalmente em alguns instantes;
  • Fazer coisas que não faria normalmente/contar segredos. A pessoa estará totalmente consciente e no controle da mente dela durante o processo e se caso dentro do processo hipnótico o profissional sugerir algo que esteja em desacordo com os valores pessoais da pessoa, esta poderá interromper o processo imediatamente. Não existe o controle da mente por parte do profissional.

Mas na perspectiva de não estado, orientada pela abordagem teórica sócio-cognitiva, não considera o transe ou estado alterado de consciência como elemento primordial da hipnose. Incontáveis estudos e práticas foram desenvolvidas sobre a hipnose, e estudiosos da psicologia comportamental perceberam que as pessoas passam pelo fenômeno e processo hipnótico por se sentirem motivadas a responder uma sugestão. O que isso quer dizer exatamente? Quer dizer que:

  • A pessoa para ser hipnotizada ela precisa querer ser hipnotizada, fazer o processo por conta própria, criar boas expectativas, alinhar suas crenças com essas expectativas. 
  • Quer dizer também que  a pessoa com expectativas inadequadas (erradas) não entra em processo hipnótico no consultório. 
  • Se o cliente chega ao consultório acreditando que ela deveria sentir um estado mental super diferente e que as mudanças vão acontecer do nada, de forma passiva, essa pessoa tenderá a não entrar no processo hipnótico. 

Inclusive uma informação importante que pode elucidar essas dúvidas e preconceitos sobre a hipnose é que toda hipnose é uma auto-hipnose, o que quer dizer que pessoa tem o controle da própria mente e de todo processo, apenas irá receber orientações do profissional de como conduzi-lo, realizando as etapas desse processo por conta própria.

É importante salientar que precisa haver engajamento por parte da pessoa, ou seja, participar ativamente do processo com comprometimento, devendo estar aberta ao procedimento e ter em mente que será a protagonista no processo hipnótico. Essa perspectiva indica que a pessoa deve responsabilizar-se pelo processo e não esperar um estado de mente especial, como transe para que seja necessário corresponder a terapia auxiliada pela hipnose.

E como é feito esse ajustamento de motivações, crenças e expectativas de uma pessoa que vai passar pelo processo hipnótico?

Esse ajustamento é realizado através do vínculo terapêutico (entre profissional e cliente) onde elementos como empatia, validação dos sentimentos apresentados são essenciais para a condução de qualquer processo psicoterapêutico.

No caso da utilização da hipnose como auxiliar nesse processo, adiciona-se a esses elementos o que chamamos de pré-talk, que nada mais é do que uma conversa prévia sobre o que é hipnose, os mitos relacionados, como funciona e o que esperar dessa ferramenta. Tudo isso a fim de proporcionar o alinhamento das motivações, crenças e expectativas da pessoa.

Mas afinal, como a hipnose funciona?

A hipnose trabalha com a alteração da percepção da realidade. Mesmo que exista uma realidade objetiva e externa, essa realidade vai ser acessada pelos nossos sentidos e ser interpretada de forma subjetiva, ou seja de forma particular por cada pessoa de acordo com os padrões emocionais e cognitivos associados com sua história de vida; Inclusive é possível perceber pessoas inseridas num mesmo contexto objetivo mas com interpretações diferentes sobre esse contexto. Não existe realidade sem a interpretação da mesma, logo, a hipnose trabalha nessa ponte entre a pessoa e o seu mundo externo e interno. 

E como ocorre essa alteração da percepção da realidade?

Uma das portas principais para essa alteração é a CRENÇA. Por meio do engajamento da crença é possível alterar a percepção da realidade.

Lembra quando eu falei sobre os rituais nos templos das civilizações antigas em que as pessoas tinham expectativas, ou seja, crenças sobre a eficácia do tratamento, o que consequentemente deixava a pessoa sugestionável?

Num contexto terapêutico contemporâneo a pessoa submetida ao tratamento auxiliado pela hipnose também possui expectativas e crenças sobre a eficácia do tratamento, sendo que esses aspectos devem ser modelados e ajustados conforme falei anteriormente.

Outra porta que pode favorecer a alteração da percepção da realidade é a IMAGINAÇÃO. Lembra quando eu citei o exemplo de quando nos envolvemos numa leitura e reagimos emocionalmente quando entramos em contato com determinado conteúdo dessa leitura?

Pois bem, reagimos emocionalmente porque a imaginação fez o link entre o conteúdo do livro com padrões emocionais aprendidos inconscientemente ao longo do nosso desenvolvimento. Hoje é sabido que a imaginação pode proporcionar mudanças bioquímicas internas, assim também como estados emocionais, visto que esses estados estão associados a essas alterações fisiológicas.

Logo, através da hipnose é possível dirigir a imaginação com o propósito de realizar determinadas alterações na forma como percebemos determinados estímulos, sejam eles externos, vindos do ambiente, ou internos, sensações no corpo.

E por falar em alterações fisiológicas, a FISIOLOGIA também é uma porta para alteração da percepção da realidade. Quando entramos em estado de relaxamento através da sugestão hipnótica determinadas reações fisiológicas e motoras correspondem ao que está sendo sugerido, o que contribui para a manutenção da sugestionabilidade, ou seja, a aceitação da sugestão com mais facilidade.

A partir do momento em que a pessoa percebe a fisiologia do relaxamento obedecendo as sugestões (dadas para relaxar) o indivíduo percebe que tem recurso para alterar a percepção da realidade. 

E por fim, a experiência vivenciada confirma a crença inicial na eficácia do tratamento.

Como puderam perceber, existe aí um loop hipnótico:

  • Crença – altera a imaginação
  • Imaginação – altera a fisiologia
  • Fisiologia – favorece uma experiência
  • Experiência – a experiência vivenciada confirma a crença

E assim a realidade é alterada em pequenas camadas.

E como a hipnose pode ajudar no processo psicoterapêutico?

Agora que vocês já sabem como a hipnose funciona, é preciso saber como ela pode te ajudar enquanto ferramenta terapêutica. Vale ressaltar que a hipnose pode ser utilizada em vários contextos de terapia. Como eu disse, os conselhos de medicina, fisioterapia, odontologia e psicologia reconhecem a hipnose como ferramenta auxiliar no processo terapêutico.

Logo, um médico pode utilizá-la para auxiliar num tratamento de dor, assim como o fisioterapeuta também, no caso da psiquiatria, pode-se utilizá-la para auxiliar no tratamento de alguns transtornos mentais, o dentista, por sua vez, pode utilizar a hipnose para auxiliar no processo anestésico numa extração de dente, e por fim o psicólogo pode utilizar a hipnose para auxiliar e potencializar o processo psicoterapêutico no tratamento de transtornos psicológicos relacionados à ansiedade como:

  • Transtorno de ansiedade generalizada,
  • Transtorno ou síndrome do pânico,
  • Transtorno de estresse pós-traumático,
  • Transtorno de humor, como depressão,
  • Transtornos alimentares,
  • Dependência química,
  • Etc.

Assim também como pode auxiliar em demandas que não se remetam exatamente a transtornos psicológicos, mas a demandas que podem estar associadas ao desenvolvimento humano e capacidades profissionais e esportivas, como aprimorar o desempenho esportivos em atletas, aprimorar o processo de memorização e aprendizagem etc.

São inúmeras as possibilidades de utilização da hipnose.

Mas voltando a funcionalidade da hipnose.

É importante salientar que os estados emocionais, ou seja as emoções, são aspectos que estão intimamente relacionados às demandas que exigem um tratamento, e padrões emocionais vão sendo construídos e aprendidos no decorrer da história de vida. Em consequência, os processos cognitivos, ou seja, atividades mentais como atenção, pensamento, julgamento, percepção são influenciados por esses estados.

Na psicoterapia, com o auxílio da hipnose a pessoa desenvolve um sistema de autopercepção que possibilita perceber as alterações que estão ocorrendo na mente, regular seus estados emocionais para manter uma atitude mais positiva e acertiva em situações de adversidades, ressignificando a percepção das pessoas sobre esses eventos, podendo superar um estado emocional tido como negativo, promovendo um bem-estar mental no processo de uma experiência vivida.

É possível utilizar a Hipnose Clínica na Psicoterapia on-line?

Sim! É possível utilizar a hipnose clínica como ferramenta coadjuvante na psicoterapia on-line. Diante das necessidades emergentes, novas adaptações foram elaboradas no campo da psicoterapia, e a modalidade on-line, através da chamada de vídeo, se tornou fundamental nessa prestação de serviços sobre o cuidado com a saúde mental.

Sendo assim a utilização de ferramentas terapêuticas, como a hipnose clínica por exemplo, também precisou se adaptar a essa nova realidade. Além da importância do vínculo terapêutico, alguns cuidados estruturais necessitam ser combinados previamente.

A orientação para se acomodar num ambiente que não hajam interferências de outras pessoas, posicionamento dos possíveis aparelhos utilizados na psicoterapia on-line (celular, notebook, tripé/suporte), assim como outras combinações prévias no intuito de se precaver contra imprevistos que estão fora do nosso controle (como a conexão da internet, por exemplo), são alguns dos cuidados que viabilizam a execução dessa pratica.

Tudo isso para que o ambiente se assemelhe ao setting terapêutico.

Conclusão

E para finalizar gostaria de fazer uma observação. Como eu disse no início, muitas pessoas me procuram pra tirar dúvidas sobre o tratamento com a hipnose, e o curioso é que muitas vezes o número de pessoas que buscam informação sobre a hipnose é maior que o número de pessoas que buscam informações sobre a psicoterapia em si.

E é importante deixar claro que a hipnose é apenas uma ferramenta que auxilia e potencializa o processo psicoterapêutico, mas é preciso ter em mente qual o objetivo a ser alcançado na psicoterapia, assim como a importância de realiza-la.

A psicoterapia, por sua vez, ajuda a pessoa que procura por ajuda profissional a resolver conflitos emocionais que geram sofrimentos psíquicos, muitas vezes incapacitando a pessoa, assim como também auxilia a autoaceitação, a autocompaixão, promovendo uma ampliação da consciência sobre si, suas potencialidades, limitações e processos cognitivos e emocionais automatizados que influenciam na resolução de determinadas situações no dia a dia.

Por consequência a pessoa aprende a experienciar suas emoções de outras maneiras, flexibilizando determinadas crenças e comportamentos rígidos, dando lugar a novas posturas em relação à vida. E a hipnose apenas auxilia o desenvolvimento de todo esse processo de transformação mas não deve ser vista como uma abordagem principal a ser utilizada, evitando assim falsas expectativas com relação a utilização da técnica.

Bem, espero ter contribuído um pouco com essas informações sobre a utilização da hipnose clínica como ferramenta coadjuvante no processo psicoterapêutico. E caso tenham alguma dúvida ou opinião, deixe o seu comentário.

Um abraço e até a próxima oportunidade.

 

Psicólogo Clínico: Marco Sadock

CRP: 03/15593

 

Referências bibliográficas:

Silberfarb, B. (2011). Hipnoterapia Cognitiva – Editora: Novos Temas/Grupo Vetor S/A

Ferreira, M. V. C. (2003). Hipnose na Prática Clínica – Editora: Atheneu

Marco Vinicius Sadock
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